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Calote na área do euro?

Celso Ming

31 de dezembro de 2010 | 19h00

Uma das razões que justificaram a criação do euro pelo Tratado de Maastricht, em 1999, foi a de que a moeda única blindaria os países do bloco contra situações de default (incapacidade de honrar seus compromissos).

No entanto, 2010 foi o ano em que a área do euro se deu conta de que terá de lidar com a quebra de Estados soberanos. E, nesse processo, há os que entendem como inevitável que os bancos assumam certo calote da dívida europeia e há aqueles que pensam que tal calote seria um desastre maior do que aquele que está em curso.

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Merkel. Reestruturar a dívida (FOTO: Thierry Roge/REUTERS)

A primeira autoridade a reivindicar a reestruturação da dívida dos países da área do euro incapazes de honrar seus compromissos foi a chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Reestruturação significa empurrar para os credores pelo menos parte da encrenca.

Essas declarações procuram atender a dois problemas. O primeiro é o de que não se pode deixar a maior parte do ajuste para o contribuinte dos países responsáveis com as contas públicas (Alemanha, Áustria e Holanda). E o segundo, o de que não vai haver recursos suficientes para transferir a países de tamanho médio se forem obrigados a pedir socorro. A Grécia consumiu € 110 bilhões e a Irlanda, € 85 bilhões. Imagine-se o que não acontecerá se Espanha e Itália também sucumbirem.

O especialista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, escreveu artigo no dia 5 de dezembro avisando que a reestruturação é inevitável. Ele lembrou que foi o Plano Brady que salvou a América Latina do naufrágio geral nos anos 80.

Na outra ponta do espectro há os que pedem que se pare de falar nisso. O ministro de Finanças da Irlanda, Brian Lenihan, por exemplo, advertiu que essas pressões elevam os custos de financiamento das dívidas e tudo fica muito mais difícil.

Pode-se argumentar que o aumento dos juros cobrados na colocação dos títulos dos países excessivamente endividados tem de ser visto como uma espécie de seguro contra quebras e que, portanto, já embute a aceitação dessa eventualidade. Mas o problema não para aí. Está em também aumentar o risco do sistema.

O caso da Irlanda é a demonstração de que é preciso ir mais devagar com essa exigência. A dívida irlandesa só saltou em dois anos de 25% para 65,5% do PIB porque seu Tesouro foi obrigado a socorrer seus bancos. O naufrágio do seu sistema financeiro provocaria não só uma quebradeira geral, mas colocaria em risco a rede bancária e as finanças dos países vizinhos. Só a Inglaterra detém cerca de 100 bilhões de libras em empréstimos a bancos irlandeses. E, como relata o comentarista do Financial Times Martin Wolf, em 2009 os bancos da Alemanha eram credores dos países mais complicados em cerca de 16% do seu PIB. E os da França, em 15%.

Ou seja, no momento em que for deflagrado um processo de reestruturação de alguma dívida soberana, aumentará a rejeição dos títulos dos países mais enfraquecidos porque o risco de reestruturação em cadeia aumentará. E, a partir do momento em que as finanças dos bancos estiverem ainda mais ameaçadas, serão inevitáveis novas injeções de recursos públicos para evitar o colapso. Essas injeções, por sua vez, tenderão a provocar a deterioração das finanças públicas.

São essas razões que levam à conclusão de que está muito distante uma solução para a crise. A Europa ainda vai sangrar muito até conseguir a cura. E, é claro, a doença do euro terá lá seu impacto na economia mundial, inclusive na do Brasil.

CONFIRA

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No gráfico, você tem o acréscimo que os países em crise na Europa têm de pagar para rolar sua dívida.

O 17º sócio. Em meio à maior crise da área do euro, quando se discute inclusive a possibilidade de dissolução da moeda única, eis que o bloco recebe neste sábado o mais novo membro (o 17º), a pequena Estônia, com 1,3 milhão de habitantes e PIB de US$ 19 bilhões. Ela chega tinindo, ostentando as melhores condições fiscais de toda a área: um déficit orçamentário de apenas 1,7% do PIB e uma dívida pública só de 7,2% do PIB.

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