Câmbio justo

Câmbio justo

Celso Ming

20 de agosto de 2013 | 20h00

A disparada da cotação do dólar nas últimas cinco semanas (veja o Confira), de repente, generalizou a percepção, até mesmo entre os que defendiam forte desvalorização do real com o objetivo de dar competitividade à indústria, de que o câmbio foi longe demais e de que é preciso parar esse trem.

Segunda-feira, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, se sentiu na obrigação de advertir de que os negócios com moeda estrangeira vinham pagando um prêmio excessivo. O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos que vinham sugerindo um dólar mais caro para reequilibrar o setor produtivo, também passou a pedir que as autoridades fossem mais incisivas em segurar determinado patamar do câmbio, aparentemente à altura dos R$ 2,30, nem que para isso fosse necessário recorrer à centralização do câmbio.


Tombini. Prêmio “excessivo” (FOTO: Marcos de Paula/Estadão)

Isso aí é como aquele segurança que fica à porta para dizer quem pode e quem não pode entrar na festa. A centralização exigiria que o Banco Central arbitrasse caso por caso quem pode comprar dólares e em que quantidade.

No Brasil há sempre aqueles que, mesmo no regime de flutuação suja, têm opinião formada sobre qual deve ser “o câmbio justo”, conceito que não existe em Economia. Entre esses, há aqueles que olham para as agruras da indústria e determinam que, “no estado da arte”, para dar um mínimo de previsibilidade à indústria, o dólar precisa estar cotado, digamos, a R$ 2,60. Essa abordagem não leva em conta que o problema pode estar no atraso tecnológico ou no custo Brasil e que, portanto, um câmbio desvalorizado reforça distorções.

Outros olham para o estrago provocado pela inflação tanto sobre o real quanto sobre o dólar e, em seguida, concluem que, para equiparar-se ao câmbio, suponhamos de 2005, a desvalorização teria de ser de pelo menos 40%, ou de outra magnitude qualquer.

Essas duas abordagens se esquecem de que o preço de uma moeda em outra moeda depende principalmente das proporções da oferta e da procura, nas duas pontas do mercado. Se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) ao longo dos cinco últimos anos injetou US$ 3,4 trilhões nos mercados, é óbvio que a liquidez, ou a oferta de dólares, se alterou profundamente para mais, fator que tem de ser levado em conta. Por outro lado, a oferta de moeda estrangeira num determinado câmbio depende também da qualidade da economia local. Com os sucessivos crescimentos nanicos do PIB, com essa inflação de 6% ao ano, com as enormes distorções do setor produtivo e crescente perda de confiança, como agora, é compreensível que o fluxo de moeda estrangeira para o Brasil passe por estrangulamentos.

Se o governo quer o câmbio num determinado lugar, como na China, tem de ter condições para isso. Não é para o Brasil, que tem baixo nível de poupança, de 17% do PIB, uma fração da poupança chinesa, de 51% do PIB.

Mais uma vez, desembocamos no mesmo beco. O problema do Brasil não é o câmbio; são as mazelas da política econômica, a começar pela leniência com que são conduzidas as contas públicas, passando por sucessivos incentivos ao consumo sem contrapartida no aumento da produção. O problema não é o ímpeto dos ventos nem o tamanho das ondas; é a fragilidade da embarcação.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução das cotações do dólar em reais no câmbio oficial nas últimas cinco semanas.

Sem confiança? Se é verdade o que disse ontem o ministro Guido Mantega, que o atual “estresse cambial” se deve ao fato de que as empresas com compromissos no exterior correram para o hedge (proteção), então também se conclui que as empresas não estavam protegidas e tiveram de providenciar proteção. Mas, se não precisavam de proteção antes, talvez fosse porque estavam mais confiantes. Agora perderam a confiança?

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