Cano furado

Celso Ming

21 de janeiro de 2011 | 19h18

De toda água produzida pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), 26% se perdem. São 944 bilhões de litros desperdiçados por ano, volume suficiente para abastecer a cidade do Rio de Janeiro.

A Sabesp perde na água limpa e perde na água suja. Como metade da conta d’água corresponde aos serviços de esgotos, a falta de faturamento no fornecimento de água tratada implica falta de faturamento também no escoamento da rede de esgotos.

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E, no caso da água limpa, não está se falando aqui do que sai pelo ralo quando o banho demora demais ou do que escoa da torneira aberta na hora de escovar os dentes. O assunto é água que se perde por deficiências de gestão.

Cerca de 70% dessa perda ocorre por vazamentos nas tubulações ao longo da rede. Outra parte desaparece em ligações clandestinas, obra dos “gatos”. E há aquela água que é consumida, mas que não é faturada corretamente porque os hidrômetros estão com defeito.

O até agora presidente da Sabesp, Gesner de Oliveira, vem repetindo que a redução das perdas é uma das prioridades da empresa. Nos últimos quatro anos foram investidos mais de R$ 850 milhões em melhorias nessa área. Os resultados começam a aparecer, mas ainda são tímidos: queda do índice de perdas de 34%, em 2004, para 26%, em 2010.

Esse número é melhor do que o da média nacional, que gira em torno dos 40%. Mas é descomunal se comparado com o que acontece em outras partes do mundo. O índice médio de perdas da OCDE (países ricos) é de 15%. O do Japão está abaixo de 5%. A meta da Sabesp é se igualar aos padrões internacionais, chegando em 2019 a um índice de perdas de 13%.

A estratégia para alcançar esse objetivo não tem mistério: é mapear os pontos de vazamento e tratar de corrigir os problemas. Outra frente de atuação é melhorar a medição nas residências.

O especialista Paulo Costa, da consultoria H2C, adverte que o Brasil emprega tecnologias ultrapassadas. Em Israel, por exemplo, os medidores de água são dotados de chips e a coleta de informações sobre o uso da água é feita por aviõezinhos teleguiados que sobrevoam as casas. Para introduzir sistema semelhante aqui, seria preciso trocar todos os relógios de água.

O consultor em saneamento Airton Gomes aponta outra deficiência: baixo fortalecimento do aparato regulatório do Estado. As agências reguladoras desse segmento são relativamente novas. A responsável em São Paulo é a Agência Reguladora de Saneamento e Energia (Arsesp), com menos de três anos de atuação. Hoje ela somente acompanha a medição para ver o quanto de água se perde. O que se espera é que participe mais ativamente de todo o processo e exija mais eficiência.

“Nós sabemos que os programas de redução de perdas são caros, mas as companhias precisam entender que custa muito mais jogar fora água tratada”, avisa Tobias Jerozolimski, superintendente da Arsesp.

A Sabesp tem prejuízo de R$ 2 bilhões por ano (28% das receitas) com essas perdas. Mas perde também com a falta de faturamento de serviços de esgoto. Apenas na Grande  São Paulo há 6 mil poços artesianos clandestinos, cuja água usada vai para a rede de esgotos e deixa outro rombo nas contas. / COLABOROU ISADORA PERON

CONFIRA

O vizinho reclama. O ministro Mantega está determinado a encaminhar à Organização Mundial do Comércio e ao Grupo dos 20 proposta no sentido de que a manipulação do câmbio passe a ser considerada manobra desleal que favorece as próprias exportações em detrimento dos demais.

Reclamação antiga. Nos anos 30, o economista inglês Dennis Robertson já denunciava políticas de desvalorização cambial como manobras destinadas a “transformar o vizinho em mendigo” (beggar thy neighbour). Em outubro, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, engrossou essas denúncias.

Queixo de vidro. O objetivo de Mantega é enquadrar os Estados Unidos, cujo banco central está despejando dólares no mercado e produzindo sua desvalorização, e também a China, que mantém o yuan atrelado ao dólar. É improvável que Mantega seja ouvido. Com menos sucesso, o Brasil também está tentando desvalorizar o real para favorecer seus exportadores.

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