Castidade cambial

Castidade cambial

A política é manter o real valorizado (dólar relativamente barato) para evitar o encarecimento dos importados e, por esse canal, evitar mais pressão da inflação; Embora negado pelas autoridades, o câmbio hoje desempenha a função de âncora dos preços

Celso Ming

11 de agosto de 2014 | 21h00

“Dai-me a castidade, Senhor, mas não agora”, dizia Santo Agostinho, no seu tempo de mocidade (Confissões, capítulo VII).

É o que proclama, também, o Banco Central (BC), quando o assunto é câmbio. Está lá, na última Ata do Copom, que vai ser preciso alinhar preços internos e externos. Aí já vai admitido um desalinhamento a ser corrigido, se não por outra razão, pela necessidade de dar mais competitividade à indústria, que produz caro demais e enfrenta o jogo duro dos importados, baratos demais. O realinhamento dos preços internos e externos se dá, principalmente, por meio de um câmbio mais realista. Mas esse realinhamento não é para acontecer agora…

Nessa matéria, o BC não é sincero. A política oficial é a de que o câmbio flutua e, nessa flutuação, a intervenção do BC se limita a evitar volatilidade das cotações. Significa que, se as pressões do mercado são excessivas pela desvalorização do real (alta do dólar), a tarefa do BC consiste em vender moeda estrangeira, ou seja, em aumentar a oferta. Quando a pressão é no sentido contrário, de valorização do real, a operação é de compra de dólares ou de aumento da procura.

Esse jogo é mais complicado do que o admitido, porque a política é manter o real valorizado (dólar relativamente barato) para evitar o encarecimento dos importados e, por esse canal, evitar mais pressão da inflação. Embora negado pelas autoridades, o câmbio hoje desempenha a função de âncora dos preços.

Faz parte dessa política a decisão, tomada em junho, de zerar o IOF na entrada de moeda estrangeira destinada às aplicações de renda fixa. O fim do imposto torna mais rentáveis essas aplicações e, assim, ajuda a atrair dólares.

As pressões para a alta do dólar são cada vez maiores por causa do aumento das incertezas que vêm com as eleições e com a expectativa de que o realinhamento de preços internos e externos exigirá uma cotação do dólar mais alta.

Não dá para ignorar duas outras forças de redução da oferta de dólares no câmbio interno: (1) a decisão do Fed (banco central dos Estados Unidos) de parar de emitir dólares para a compra de títulos; e (2) o aumento das tensões geopolíticas na Ucrânia e no Oriente Médio.

A principal maneira de aumentar a oferta de dólares para evitar a alta indesejada no câmbio é o leilão de swaps. Essas operações não consistem na venda direta de dólares, mas na venda de títulos que asseguram a variação cambial. No vencimento do título, seu portador terá, como rendimento, a variação do câmbio no período. Assim, se quiser comprar dólares, terá a quantia em reais para isso.

O problema é que o BC já despejou US$ 91,5 bilhões de swaps (veja o gráfico) e, mais cedo ou mais tarde, terá de parar esse jogo, não só porque o volume de dívidas (correspondentes aos swaps) ficará pesado, mas também porque será preciso garantir o tal realinhamento.

É difícil de imaginar qual será a intensidade desse realinhamento porque vai depender de quem estará à frente do BC. As incertezas permanecerão mais alguns meses no câmbio, o que obrigará o BC a operar com mais intensidade, se mantiver a política. Enfim, a castidade cambial se vier, só virá depois das eleições.

CONFIRA:

Lei das Domésticas
Em depoimento sobre a Coluna publicada no domingo que tratou das leis que regulam o trabalho doméstico, o leitor Almir Azevedo expôs uma lista de exigências burocráticas que teve de enfrentar quando teve de demitir uma empregada doméstica. “Eu pagava o FGTS para ela, mesmo não havendo obrigação legal, mas na hora de dispensá-la e de encontrar a forma de pagar a multa rescisória foi um calvário”.
Mais simplicidade, gente
Como conta Azevedo, durante o processo de demissão, uma gerente da Caixa Econômica Federal chegou a sugerir que consultasse um contador, como se se tratasse de uma empresa e não de pessoa física. “Há poucas informações disponíveis para leigos. Se a intenção real é mesmo ajudar os empregados sem prejudicar os empregadores, as coisas deveriam ser mais simples”, observa Azevedo. Ele afirma que, por causa de tanta dificuldade, não pretende recolher mais FGTS de empregados domésticos até que seja obrigado por lei.

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