Choque de alimentos?

Choque de alimentos?

Celso Ming

20 de julho de 2012 | 20h00

Começam a se juntar indícios de virada da inflação.

Nesta sexta-feira, o IPCA-15 (medido em 30 dias terminados no dia 15 de cada mês) veio muito acima do esperado: avanço de 0,33% em julho, contra 0,18% em junho.

Os números parecem baixos. O que preocupa é o que está por trás deles. Já dá para identificar, por exemplo, nova pressão sobre os preços dos alimentos. A origem disso está no Meio-Oeste dos Estados Unidos, o maior cinturão produtor de grãos do mundo, que enfrenta a mais séria seca desde 1956.

Em apenas 30 dias, as cotações do milho na Bolsa de Chicago sofreram um rali de 54%; as do trigo, 48%; e as da soja, 30% (veja gráfico). Aumenta o risco de choque de oferta. Em consequência da crise, estoques vinham sendo mantidos relativamente baixos. Como constituem a base das rações animais, a alta dos cereais tende a se espraiar por grande parte da cadeia alimentar.

Para o agronegócio brasileiro é excelente notícia. A próxima safra no Centro-Sul, que se inicia em setembro ou outubro, vem abençoada com preços excelentes, empurrados não só pela escalada dos preços das commodities, mas também pela desvalorização do real (alta do dólar), de aproximadamente 20%.

É ainda boa notícia para a balança comercial brasileira, cujo saldo estava ameaçado pelo baixo retorno das exportações e disparada das importações.

Mas não é boa notícia para a área de combustíveis. O governo pretendia se abastecer de álcool anidro importado para poupar gasolina, mas a quebra da produção de milho (a matéria-prima do álcool americano) pode furar o projeto. E é possível que a alta dos alimentos gere, pelo efeito simetria, impacto semelhante em outras commodities, sobretudo no petróleo.

A estocada nos preços dos alimentos pegou o Banco Central desprevenido. A Ata do Copom divulgada há dois dias declaradamente conta com “pressões baixistas sobre os preços das commodities”. E ainda será preciso considerar o efeito sobre os preços provocado pelo reajuste já anunciado da gasolina, fora das telas dos radares do Banco Central na última reunião do Copom, dia 11.

Se esse quadro de choque de alimentos se confirmar, o Banco Central terá de rever também sua política monetária. Não poderá mais fixar os juros somente na suposição de que a baixa atividade econômica lá fora e aqui segure automaticamente a inflação. Terá de usar a alavanca dos juros. Ou seja, o ciclo baixista, iniciado em agosto do ano passado, pode se estancar (e ser revertido) antes do previsto.

Ainda nesta setxa o Fundo Monetário Internacional divulgou alentado relatório sobre a economia do Brasil, onde está reafirmada, com todas as letras, a necessidade de mudança estratégica da política econômica.

Está sendo consolidada uma percepção de que o foco centrado no consumo já deu o que tinha de dar. E, para que a ênfase seja transferida para o investimento, será preciso choque de competitividade. A virada da inflação pode ser boa oportunidade para novo ataque.

CONFIRA

O gráfico mostra a evolução do IPCA-15 nos últimos 7 meses.

Ai, ai, ai, Espanha. Nesta setxa-feira, os títulos de dívida da Espanha tiveram de pagar um rendimento (yield) recorde, nada menos que 6,12 pontos porcentuais ao ano acima do que pagam os títulos da Alemanha. Os juros dos títulos de 10 anos já ultrapassam os 7% ao ano, nível que deixa uma dívida insustentável a longo prazo. A Bolsa de Madri sofreu uma queda de 5,8%, a maior desde maio de 2010. São demonstrações de que o mercado não confia em que o governo da Espanha consiga honrar seus compromissos.