Cobertor mais curto

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Cobertor mais curto

Celso Ming

24 de setembro de 2014 | 21h00

A primeira impressão de quem examina as contas externas (Balanço de Pagamentos) do Brasil é a de que pararam de piorar.

Essa não deixa de ser uma boa notícia, porque uma forte deterioração dessas contas tenderia a paralisar o País, como está acontecendo com a Argentina, hoje asfixiada pela falta de moeda estrangeira com que pagar seus compromissos no exterior.

O déficit em Conta Corrente (que aponta todo o entra-sai de dólares, com exceção do que acontece no segmento de capitais) melhorou nos primeiros oito meses do ano quando comparado com igual período de 2013: caiu de US$ 57,6 bilhões para US$ 54,8 bilhões. Tomando como medida o tamanho do PIB, caiu de 3,57% para 3,47%. (Veja o gráfico abaixo.)

ContaCorrenteDeficit

Mas essa é apenas a primeira impressão. Um conjunto de fatores vem piorando a qualidade desse resultado. Aqui vão apontados alguns deles.

O saldo da Balança Comercial, conta encarregada do encontro do faturamento com exportações e as despesas com importações, continua negativo, mas tende a se tornar positivo em cerca de US$ 2,5 bilhões em 2014, quase do mesmo tamanho do registrado em 2013. Desta vez, a reversão acontece mais por encolhimento das importações do que pelo melhor desempenho das exportações.

É resultado que reflete o baixo crescimento da economia, circunstância que vem dispensando certo volume de importações. Além disso, a redução dos preços internacionais das commodities, especialmente da soja e do minério de ferro, também impede maior crescimento das exportações. Ou seja, nem tudo está indo bem nesse capítulo.

Para que o País não perca reservas, um déficit nas Contas Correntes sempre tem de ser coberto com entrada líquida de capitais em volume equivalente. Isso continua acontecendo, mas não como há alguns anos, quando a entrada de capitais destinados ao investimento (Investimento Estrangeiro Direto, IED) era suficiente para compensar a saída de dólares. Neste ano, o cobertor do IED ficará cerca de 48% mais curto. Isso significa que esses 48% terão de ser compensados com a entrada de outros capitais, principalmente de capitais de curto prazo que vêm para cá tirar proveito dos juros altos no Brasil. Por aí já se vê certa piora da qualidade do financiamento do rombo, porque capitais de curto prazo estão sempre sujeitos a levantar voo.

E não é só isso. Há indícios de que a qualidade do IED também não é a mesma. Só em agosto, 35% do IED correspondeu a empréstimos levantados pelas filiais brasileiras com as matrizes no exterior para fugir dos juros mais altos aqui no Brasil. A tabela que vai no Confira mostra também que cada vez mais os investimentos estrangeiros vêm mais maciçamente para o setor de serviços, e não mais para a indústria ou para a mineração. Pode ser outra indicação de que a indústria já não atrai como antes.

A principal questão é saber até que ponto o atual equilíbrio do Balanço de Pagamentos é duradouro. Há incertezas enormes pairando no ar. Falta sobretudo saber qual será a consistência dos fundamentos da economia que o novo governo, qualquer que seja ele, implantará a partir de janeiro de 2015.

CONFIRA:

ied TABELA

A tabela mostra para que setores se destinaram os Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) que chegaram ao Brasil nos oito primeiros meses de 2013 e de 2014.

O céu é o limite
O “blue”, como é chamado na Argentina o dólar no mercado paralelo, bateu ontem mais um recorde. Chegou a 15,95 pesos. A diferença com o oficial já atingiu 89%. Em plena crise de pagamentos ao exterior, os fundamentos da economia argentina seguem em franca deterioração.

 

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