Coisa de beiço

Coisa de beiço

Celso Ming

19 de fevereiro de 2014 | 21h00

Um velho jeito de não lidar com um problema é tentar desclassificar quem o traz à discussão.

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, por exemplo, em vez de tentar entender por quais motivos o empresário está descontente com o governo e não se anima a investir, preferiu dizer que “ele faz beicinho”.

Não foi muito diferente do que tem feito a presidente Dilma quando afirma que as críticas a seu governo são veiculadas pelos pessimistas de sempre, como se este fosse um problema de mau funcionamento do fígado – ou dos melancólicos, os que produzem bílis negra, como se pensava há alguns séculos.


Bernardo. Questão de confiança (FOTO: Ed Ferreira/Estadão)

A falta de confiança dos empresários na política econômica do governo é inegável. Ela não só se manifesta nas pesquisas divulgadas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) ou pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Está aí todos os dias nos jornais. Há 11 dias, o empresário Pedro Passos, que falou não em seu nome, mas no do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), advertiu em entrevista ao Estadão que “o empresário perdeu a confiança no governo”. O ex-ministro Delfim Netto, interlocutor tanto dos empresários como do governo, repete a mesma coisa. Essa percepção é hoje a principal causa da falta de respostas do investimento privado.

Não é apenas o empresário nacional que está fazendo o beicinho identificado pelo ministro. Os analistas do mercado financeiro internacional todos os dias vêm editando análises de prospectos negativos sobre o comportamento da economia. As projeções de mais de cem instituições e consultorias captadas pela Pesquisa Focus do Banco Central apontam para novas decepções sobre o desempenho da economia.

E já não é apenas gente descolada e leviana que aproveita a má fase para descarregos sobre o governo, “perchè piove, perchè no piove”, como diz o italiano reclamão. Há meses, as agências de classificação de risco vêm alertando para a ameaça de rebaixamento da qualidade da dívida brasileira, o que implica percepção de deterioração. Na semana passada, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), em documento oficial encaminhado ao Congresso dos Estados Unidos, advertiu que a economia brasileira é a segunda mais vulnerável às crises internacionais entre os países emergentes. Certa ou errada, é a percepção do Fed, com suas consequências. E, ainda nesta quarta-feira, o Fundo Monetário Internacional, sem excluir o Brasil, avisou que os países emergentes estão vulneráveis.

Mas o povão está feliz da vida, como comprovam as pesquisas de intenção de voto… Será? Afinal, o que desde junho estão dizendo as manifestações, os protestos e os rolezinhos? Estão dizendo que, em vez de reduzir o IPI dos automóveis e subsidiar a gasolina, o governo deveria ter cuidado mais do transporte coletivo, que é ruim e caro. Estão dizendo que tem dinheiro para garantir o padrão Fifa para a Copa do Mundo, mas não tem para a Saúde, para a Educação e para a Segurança.

Não é apenas o empresário. É o Brasil fazendo beicinho.

CONFIRA:

Veja como evoluiu o setor de serviços no ano passado.

Serviços e indústria. Se o faturamento do setor de serviços cresceu 8,5% em 2013, segue-se que, em termos reais (descontada a inflação), num cálculo sem precisão, cresceu em torno de 2,8%, provavelmente mais do que a indústria. A conferir no PIB que sairá dia 27.

É com vocês. Está na mão do governo mudar o clima de desconfiança. Vai depender do tamanho dos cortes a serem anunciados nesta quinta-feira e da sua credibilidade.

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