Colapso de um sistema

Celso Ming

17 de dezembro de 2011 | 16h30

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, vem insistindo num ponto de vista que precisa de mais atenção.

Ele tem dito que a crise do euro reflete problema bem mais profundo: o fracasso das políticas de bem-estar social adotadas depois da 2.ª Grande Guerra por grande parte da Europa.

Antes de mais nada, é preciso dar o devido desconto para afirmações do gênero feitas por Sarkozy. É um político conservador que, hoje, tem todo interesse de bater nos princípios defendidas pelos social-democratas – adversários nas eleições de 2012. Essas doutrinas enfatizam políticas de bem-estar social: serviços básicos universais de educação, saúde e previdência; amplo seguro-desemprego; menos horas de jornada de trabalho e mais lazer; subsídios para obtenção de casa própria e tudo o mais. Mas não dá para descartar sumariamente o diagnóstico de Sarkozy.

Enquanto puderam desfrutar das vantagens proporcionadas pelas políticas neocolonialistas, potências europeias levaram adiante esses luxos da sociedade moderna. Mas isso mudou. O que foi durante pelo menos 60 anos prometido, não pode ser mais entregue à população. Essa quebra do sonho se deu porque uma revolução está em curso. E ela tem a ver com a redistribuição internacional do trabalho.

Os números variam conforme a aferição, mas não está errado dizer que, a cada ano, nada menos que 30 milhões de chineses são incorporados ao mercado de trabalho e ao sistema de consumo – em toda Ásia, mais de 40 milhões.

O impacto sobre o emprego nos Estados Unidos e na Europa é enorme. Cada par de meias exportado pela China ou pela Tailândia corresponde a empregos que se abrem na Ásia e se fecham pelo mundo. Grandes multinacionais que ainda não operam a todo vapor na China têm esses planos e, assim, vão instalando na Ásia unidades de produção que, anteriormente, seriam abertas nos países de origem.

Há dois dias, o filósofo Zygmund Bauman chamava a atenção na Espanha para um número desolador: na Europa, 51% dos jovens com formação universitária não conseguem trabalho para o qual estão qualificados. Há alguns anos, acreditava-se que bastava mais educação e mais treinamento para garantir boa ocupação. Hoje, não é mais suficiente colecionar diplomas e certificados de conclusão de curso.

Isso significa que o desemprego nos países ricos (não só na Europa) não cresceu apenas por causa da crise e da retração da atividade econômica. Simplificando, aumentou porque o chinês está sendo incluído no mercado internacional de trabalho.

Como produzem e exportam menos, países ricos também geram menos renda e arrecadação. E, no entanto, têm de enfrentar despesas muito maiores com seguro-desemprego, saúde pública, aposentadorias precoces e capitalização de bancos. Ou seja, nas atuais condições do mercado internacional do trabalho, o sistema de bem-estar social, tal como tem funcionado, já não dá conta do financiamento da crescente despesa pública.

É provável que, à medida que se aprofundar a crise, se consolide também a ideia de que já não será possível manter propostas social-democratas. A que preço e em que condições essas rupturas serão superadas são enormes incógnitas para quem se aventura a desvendar os novos tempos e modelos de produção e de política que tomarão o lugar dos hoje fornecidos.

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As margens do câmbio. Quem procura piso e teto para o câmbio na atual política do governo Dilma tem elementos nas declarações que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fez sexta-feira na sede do jornal ‘O Estado de S. Paulo’. Ele deixou entrever que o governo não fica confortável nem com o dólar cotado abaixo de R$ 1,60 nem acima de R$ 1,85. Quer dizer, a partir desse “teto”, o Banco Central usará munição para abater a alta.