Competitividade perdida

Competitividade perdida

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, está carregado de razão quando afirma que “a indústria não precisa de proteção, precisa de isonomia”

Celso Ming

07 de abril de 2015 | 21h00

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, está carregado de razão quando afirma que “a indústria não precisa de proteção, precisa de isonomia”.

Com isso, Skaf desconsiderou mais uma entre repetitivas propostas que pretendem resgatar a indústria com velhos e sempre ineficazes mecanismos defensivos.

Desta vez foi a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) que costurou com cinco centrais sindicais o movimento denominado Coalizão Capital/Trabalho para a Competitividade e o Desenvolvimento. Tem cunho político com o objetivo de sensibilizar o governo para o resgate da indústria, levá-la a investir e sair do sufoco em que está. “Na década de 80” – adverte o documento – “a participação da indústria de transformação no PIB era de 35%. Desde então, vem caindo e, atualmente, está em 12%.”

Skaf. “Não precisa de proteção”(Foto: Clayton de Souza/Estadão)

Skaf. “Não precisa de proteção”(Foto: Clayton de Souza/Estadão)

Para não ficar apenas nas queixas, pede medidas recorrentes ao governo: mais desvalorização cambial, derrubada dos juros de maneira a que “acompanhem padrões internacionais”, redução da carga tributária e o fim da cumulatividade de impostos, que é a taxação em cascata, que chega a onerar o produto nacional entre 10% e 15%.

A estratégia desse movimento é equivocada. A indústria não parou de investir por falta de sensibilidade do governo, falta de empurrão político e de apoio dos sindicatos, por falta de incentivos fiscais ou falta de defesa.

O maior defeito do documento da Coalizão é pretender um câmbio adequado apenas para a indústria, juros feitos sob medida apenas para a indústria, uma política de comércio exterior apenas para a indústria – e não para todo o setor produtivo. É descabido pretender embelezar um corredor da casa, como pretende essa Coalizão, se toda a casa está desarrumada e tem lixo espalhado pelos quatro cantos.
A indústria está se desidratando todos os dias, porque perdeu ambiente de negócios, o retorno está minguando, os custos da infraestrutura nacional são proibitivos, o imposto e os juros são os olhos da cara.

Nessas condições, a indústria não consegue mesmo competir: “Os bens manufaturados já apresentaram, em 2014, déficit da ordem de US$ 111 bilhões na balança comercial, o que representa algo próximo a 2,2% do PIB”.

Mas tudo isso é consequência e não causa da deterioração da economia. O conserto, neste momento, é o ajuste das contas públicas. E, no entanto, as mesmas centrais sindicais que assinam esse documento são contra o ajuste proposto pelo governo.

A prioridade é recuperar os fundamentos da economia e a confiança e não providenciar terapia especial apenas para um setor. O presidente da Fiesp disse, também com razão, que a indústria quer isonomia, ou seja, quer condições equivalentes às dos concorrentes do exterior.

Quando as contas públicas se deterioram como se deterioraram, quando o rombo nas contas externas avança para além dos 5% do PIB e quando a inflação salta para além dos 8% ao ano, não é possível ter isonomia com a indústria do exterior. A recuperação da isonomia exige a recuperação de toda a economia.

CONFIRA:

veiculosAnfaveaMar2015

Aí está a evolução da produção de veículos nos últimos 12 meses.

Ano ruim
O salto da produção de 22,9% em março sobre a de fevereiro é apenas aparentemente um sinal positivo. A comparação com fevereiro está prejudicada pela existência de cinco dias úteis a mais. O número mais relevante divulgado nesta terça-feira pela Anfavea, a instituição que cuida dos interesses do setor, é o das projeções para todo o ano de 2015. A produção deverá ser de 2,8 milhões de veículos, queda de 10% sobre 2014. E as vendas, de 3,0 milhões, recuo de 13,2%.

 

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