Mensagem ambígua

Celso Ming

28 de julho de 2011 | 19h30

Desta vez, o Banco Central foi ainda mais ambíguo no texto da Ata do Copom divulgada nesta quinta-feira.

Insistiu num quadro geral cujo desfecho tenderia a ser o da redução da inflação: “O cenário prospectivo para a inflação mostra sinais mais favoráveis” (parágrafo 24). Mas, a seguir, parece se desdizer.

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Em junho, o Banco Central avisara que não era mais possível enfiar a inflação para dentro da meta, de 4,5%, em 2011, mas dava como certo que esse objetivo seria alcançado no próximo ano. Agora, no entanto, deixou de mencionar que a inflação na meta em 2012 seja para valer. Além disso, dá sinais de que desistiu de garantir a convergência: “O Copom identifica riscos à concretização de um cenário em que a inflação convirja tempestivamente para o valor central da meta” (parágrafo 28).

De um lado, avisa que a deterioração das condições externas deve reduzir a demanda por matérias-primas e alimentos e, desse modo, conter o avanço dos preços das commodities, o que, por sua vez, contribuiria para segurar a inflação interna.

De outro, o Banco Central reconhece que há um punhado de forças atuando na contramão. O consumo interno, ainda turbinado pelas despesas do governo federal e pelo crédito solto demais (no parágrafo 30, “impulsos fiscais e creditícios”); o alto nível de emprego; a forte expansão do crédito; e os reajustes salariais que crescem acima do índice de produtividade da economia – todos esses são fatores que puxam a inflação para níveis muito acima do desejado.

A propósito, o Banco Central repete, com ênfase redobrada, a advertência feita pela primeira vez em junho, ao afirmar que “um risco muito importante reside na possibilidade de concessão de aumentos de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade e suas repercussões na dinâmica da inflação” (parágrafo 24). E, algo mais veladamente, critica a atual política do BNDES: “O Comitê considera oportuna a introdução de iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito” (parágrafo 27).

Mas o Copom não é nem um pouco claro sobre o que fará agora. Como não repete a expressão usada antes (“aperto monetário suficientemente prolongado”, retirada também do comunicado do dia 20), ficou a impressão de pretender trabalhar com um período de pausa, para ver como fica. Como a inflação segue forte, especialmente no setor de serviços, uma eventual parada não serviria senão para reforçar a convicção de que são necessários novos ajustes monetários, sob pena de entregar uma inflação além da meta, com todos os custos políticos e eleitorais que depois serão cobrados.

Enfim, o Banco Central parece confuso. Talvez lhe falte, também na política monetária, a autonomia que lhe foi arrebatada agora na política cambial. Ou, então, talvez tema pelo que possa vir a acontecer no mercado internacional, caso o Tesouro americano comece a suspender pagamentos. O fato é que uma comunicação com essa qualidade não contribui para um gerenciamento eficaz das expectativas. Qualquer administrador privado já não sente que vá ser punido com o encalhe de mercadorias se remarcar seus preços acima do avanço da inflação.

 CONFIRA

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Esvaziado pela redução dos preços no mercado atacadista, o IGP-M continua perdendo força. Em janeiro, a evolução em 12 meses beirou os 12%; em julho, não passou dos 8,36%. O gráfico mostra a tendência.

Mudou o diagnóstico. O ministro Guido Mantega parece convencido de que os preços do dólar são formados no mercado de derivativos, não no câmbio à vista. Daí a saraivada de tiros de bazuca contra o câmbio futuro. Os fatos dirão se o diagnóstico dele está certo. Nesse caso, o Banco Central pode parar de comprar no mercado à vista.