Condições adversas

Condições adversas

O governo Dilma parece não ter se dado conta de que os ventos mudaram. Continua imaginando que o Brasil é eternamente abençoado por Deus, o que dispensa criatividade e trabalho, e que o resto do mundo está sempre pronto a curvar-se

Celso Ming

21 de novembro de 2014 | 21h00

A nova equipe econômica assumirá suas funções num momento em que o Brasil já não se impõe como a grande promessa de potência econômica.

De uns anos para cá, o B do Brics é percebido como um gigante metido em enroscos que não sabe aproveitar as oportunidades que surgem.

O governo Dilma parece não ter se dado conta de que os ventos mudaram. Continua imaginando que o Brasil é eternamente abençoado por Deus, o que dispensa criatividade e trabalho, e que o resto do mundo está sempre pronto a curvar-se.

DILMA/EMBARQUE SP

 

Dilma. Os ventos mudaram (FOTO:DIDA SAMPAIO/ESTADÃO)

Se a cada meta econômica não atingida o governo culpa a crise externa é, também, porque não parece ter entendido que a maré virou.

Há alguns anos, o Brasil era visto como grande oportunidade na área das commodities, porque o setor estava bombando, graças à grande demanda por matérias-primas provocada pelo arranque da China. Foi o que levou gigantes da mineração e do petróleo a fazer loucuras só para estar no País. Este parece ter sido o principal fator que favoreceu as lambanças aprontadas pelo empresário Eike Batista.

Este ciclo se inverteu e as cotações das commodities escorregam por um vasto tobogã, não propriamente por redução da demanda global – que continua crescendo -, mas porque os preços atraentes estimularam a produção em toda parte e a oferta disparou.

Ninguém sabe nem quando nem em que nível irão parar as cotações. Essa até agora inigualável fonte de riquezas vai rareando, como veio de minério em fase de esgotamento. A política econômica do segundo mandato Dilma terá de ser formatada sob condições adversas de temperatura e pressão.

Ainda na semana passada, a presidente Dilma apontava para o afluxo anual de US$ 60 bilhões em Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) e concluía que o investidor externo não está atacado pelo mesmo desânimo demonstrado pelo investidor brasileiro. Mas, tomado assim, com casca e tudo, este pode ser um indicador enganoso.
O capital estrangeiro ainda aflui não porque esteja entusiasmado com o desempenho da economia brasileira e de suas perspectivas, mas, em parte, porque não tem muita opção; e, também, porque já está aqui e não pode deixar seus projetos pela metade.

As estatísticas mostram que cada vez menos investimentos se destinam à indústria brasileira, cujo futuro está minado pela baixa produtividade e pela falta de políticas voltadas para sua recuperação. Além disso, a ameaça de que os títulos de dívida do Brasil sejam rebaixados pelas agências de classificação de risco é muito grande. Isso, por si só, tende a reduzir os investimentos por aqui.

Também não dá mais para contar com o rápido crescimento econômico. O Brasil se notabiliza hoje por ser um país com baixíssimo nível de poupança, mais preocupado em consumir o que produz do que em investir.

Não  se pode esperar, também, que o mercado de trabalho continue a fornecer farta mão de obra a baixos custos. Mesmo com esses PIBs miseráveis, o mercado de trabalho está cada vez mais estreito, situação de pleno-emprego. Um aumento da velocidade de crescimento teria de contar com o aumento da produtividade do trabalho, o que não é tarefa para resultados imediatos.

CONFIRA:

BOLSACAMBIO

Esta foi uma semana em que prevaleceu o noticiário dos escândalos da Petrobrás e o dos movimentos da presidente Dilma para a escolha da nova equipe econômica. O câmbio e a Bolsa refletiram esses fatos, como mostram os gráficos acima.

A China pisca os juros
O Banco do Povo da China anunciou nesta sexta-feira a redução dos juros básicos em 0,4 ponto porcentual, para 5,6% ao ano. Foi o primeiro corte nos juros em dois anos. Embora o impacto sobre o avanço do PIB deva ser reduzido, o mercado festejou como um movimento destinado a estimular o consumo.

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