Renda extra

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Continua aquecida

Celso Ming

19 de maio de 2011 | 19h15

A arrecadação recorde do governo federal em abril, mais os números do Índice do Nível de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) e, ainda, os últimos dados sobre contratação de mão de obra e nível de emprego confluem para a conclusão de que o ritmo da atividade econômica (evolução do PIB) em 2011 continua acelerado, bem mais do que vem pretendendo a política econômica do governo. São números consistentes com um crescimento econômico real (descontada a inflação) em relação ao do ano passado de 6,5%.

A evolução média do IBC-Br, já submetida a ajuste sazonal, foi de 1,3% no primeiro trimestre, o que aponta para os tais 6,5% de crescimento anual. O avanço real da arrecadação dos quatro primeiros meses do ano também é dessa magnitude. Enquanto isso, o Ministério do Trabalho informa que a criação de empregos com carteira assinada nos últimos 12 meses terminados em abril foi de 2,3 milhões, o que mostra um crescimento do mercado de trabalho de 6,7%.

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E, no entanto, as projeções do governo federal, especialmente do Banco Central, para todo o ano de 2011, são de um incremento do Produto Interno Bruto (PIB) em torno dos 4%.

Ainda esta quinta-feira, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, mostrou que não se deixa impressionar por eventuais consequências inflacionárias desse desempenho acima do esperado. Para ele, o momento é de “ponta alta” e já há sinais de desaceleração da atividade econômica. Ele reafirma que estão mantidas as projeções de uma evolução do PIB de 4% para todo este ano.

Tombini garante que a inflação atingirá o ponto mais alto “por volta de agosto de 2011” para, enfim, começar a convergir para o centro da meta, de 4,5%, no último trimestre de 2012.

Todos os números acima são o resultado da opção feita há alguns meses. Durante o último ano da administração Lula, a decisão foi aumentar as despesas do setor público e, assim, criar renda no mercado interno para facilitar a eleição de Dilma Rousseff. E, nesse início do governo Dilma, a escolha foi não atacar prontamente os focos de inflação com o rigor exigido, mas tentar a convergência para a meta apenas em 2012.

Essa estratégia implica riscos. O principal deles é o de que o mercado de trabalho não se comporte de maneira compatível com o ritmo de desaquecimento pretendido pelo governo e pelo Banco Central. Os picos inflacionários, à altura de 7% em 12 meses, coincidem com a próxima safra de negociações sindicais por reajustes de salário de importantes categorias profissionais e num ambiente ainda fortemente aquecido. Além disso, em 1.º de janeiro entrará em vigor o novo salário mínimo, cujo reajuste já contratado subirá a 14%, patamar também incompatível com a estabilidade dos preços. São fatores que conspiram contra os projetos do Banco Central de enquadramento da inflação dentro da meta até o final de 2012.

Não dá, também, para garantir que os preços das commodities agrícolas se acomodarão abaixo dos níveis atuais, porque a demanda dos emergentes, especialmente da Ásia, tende a continuar forte.

Tomara que o Banco Central esteja certo.

CONFIRA

Corte na dívida. Na última quarta-feira, os ministros de Finanças reunidos em Bruxelas admitiram, finalmente, que não há saída senão aceitar uma certa reestruturação da dívida grega (de 1,6 bilhão de euros ou 150% do PIB).

Evitar o contágio. A ideia seria facilitar uma solução para a crise da Grécia sem empurrar os credores (bancos) para o precipício e sem provocar um amplo contágio da crise pelos demais países da periferia do euro.

Rejeição. Nesta quinta, no entanto, o primeiro-ministro da Grécia, Georges Papandreou, rejeitou a reestruturação, provavelmente por temer o fechamento do mercado de títulos para o país, como aconteceu com a Argentina depois da renegociação de 2001.

Privatização. E, ainda na quarta-feira, o governo da Grécia anunciou a privatização de negócios hoje administrados pelo setor público, como aeroportos, rodovias, ferrovias e a loteria.