Contorções do petróleo

Contorções do petróleo

Quando tudo começou, há coisa de dez anos, ninguém poderia prever o impacto do xisto sobre o mercado de petróleo nem as profundas transformações geopolíticas que daí provieram.

Celso Ming

13 Fevereiro 2015 | 21h00

O mercado global ainda está atarantado com as profundas transformações provocadas pela revolução do xisto nos Estados Unidos e seus desdobramentos.

Quando tudo começou, há coisa de dez anos, ninguém poderia prever o impacto sobre o mercado de petróleo nem as profundas transformações geopolíticas que daí provieram.

A derrubada de preços, de nada menos que 40% nos últimos seis meses, é só o início do grande ajuste em curso. A decisão da Opep, ou, mais particularmente, da Arábia Saudita, tomada em fins de novembro, de não reduzir em 1 milhão de barris diários a oferta de petróleo para segurar os preços, não foi a causa de tudo, só precipitou o processo já em andamento.
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O objetivo declarado da Arábia Saudita foi alijar do mercado produtores que vinham operando a custos altos demais, especialmente na área do xisto e nos campos do Canadá.

Ocorre que os custos não ficam parados. Também tendem a cair à medida que a menor demanda dos equipamentos (sondas, plataformas, navios, dutos etc.) derrubar-lhes também os preços.

A tecnologia é outra área que vai evoluindo, especialmente na produção de xisto. Além de melhor atender às exigências ambientais, tende também a derrubar os custos de produção e, assim, a neutralizar em parte o jogo saudita.

O último relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) contém duas revelações com força de advertência. A primeira é a de que a derrubada de preços não reduzirá a oferta. Ao contrário, ainda que se espere por alguma desaceleração, até 2020 a produção de petróleo, hoje em torno dos 93 milhões de barris diários, se expandirá em 5,2 milhões de barris diários. Ou seja, nem mesmo a forte queda de preços pode parar os processos, que envolvem ciclos relativamente longos. A outra é a de que, até agora, a queda de preços não provocou uma forte expansão da demanda.

Isso sugere que o cerca de US$ 1,6 trilhão em recursos por ano que deixou de ser transferido aos produtores de petróleo (resultado da queda de preços) está sendo usado para a compra de outras mercadorias e serviços. Mais cedo ou mais tarde estará contribuindo para a retomada da economia global.

Apesar disso, a IEA entende que, a partir de 2016, o consumo de petróleo crescerá algo mais rapidamente do que a oferta. Se estiver correto, será inevitável certa recuperação dos preços a partir daí.

Mas a questão mais relevante é geopolítica. Ficou claro que a Opep perdeu, pelo menos em parte, a capacidade de determinar os preços do mercado. Segue sendo agente relevante, mas não é a mesma de há 30 anos. Em contrapartida, os Estados Unidos ganharam densidade estratégica. Além de enfraquecer a Opep, a exploração do xisto levou enormes problemas para três dos principais adversários do país: Rússia, Irã e Venezuela.

Nada disso parece ter sido intencional. As coisas simplesmente foram acontecendo. Mas podem ter-se tornado elemento decisivo para a formulação de novas políticas. Podem tornar-se, por exemplo, a principal razão pela qual o governo dos Estados Unidos deverá continuar a encorajar a produção de petróleo e gás a partir das reservas de xisto.

CONFIRA:

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Aí está a evolução das cotações do petróleo nas suas duas principais referências, o Brent (negociado em Londres) e o West Texas Intermediate (WTI, negociado em Nova York).

Riscos

O último relatório da Agência Internacional de Energia avisa que os riscos políticos associados à produção de petróleo seguem altos. Preços baixos podem produzir crises políticas em países muito dependentes das exportações e prejudicar ainda mais a produção. Podem também tornar inevitáveis intervenções destinadas a derrubar a oferta e a aumentar os preços.

 

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