Contra-ataque de gogó

Celso Ming

26 de abril de 2011 | 18h45

O governo Dilma se mostrou especialmente preocupado com os rumos da inflação. Mas ainda não está claro até que ponto está disposto a arcar com os efeitos colaterais de um contra-ataque à disparada dos preços.

Nesta terça-feira, por ocasião da instalação dos trabalhos de abertura do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – o Conselhão –, a presidente da República, dois ministros de Estado e o presidente do Banco Central se sentiram na necessidade de dar satisfações à sociedade e de alguma maneira corroborar a disposição de dar prioridade total ao combate à inflação. Foi um vigoroso tiroteio de gogó que, no entanto, deixou antever alguma vacilação: “É importante moderar o crescimento da demanda, mas sem matar a galinha dos ovos de ouro, que é o mercado interno”, advertiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

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Dilma. A prioridade do governo (FOTO: Dida Sampaio/AE)

Os discursos mostraram algumas distorções de diagnóstico e excessiva valorização das ações até agora colocadas em prática. Não dá para insistir, por exemplo, em que a maior parte da carga inflacionária deva ser descarregada sobre a disparada dos preços internacionais das commodities. Ela atacou todas as economias e, no entanto, no próprio gráfico apresentado no telão por Mantega, o Brasil está entre os países que mostram uma das inflações mais altas. Só perde para a Índia, Rússia e Argentina.

Isso demonstra que as causas locais de inflação brasileira têm um peso não desprezível e que parece minimizado. Ainda assim, dá para identificar uma certa mudança de posição tanto no ministro Mantega como no presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Até agora, ambos vinham repetindo que a redução dos preços das commodities viria logo em seguida, como resultado da virada do que antes entendiam ser um movimento nitidamente especulativo. Essa aposta não é neutra. Disfarça a pouca disposição de contra-ataque com a ideia de que um pedação da alta dos preços desmanchará sozinho.

Agora, tanto Mantega como Tombini parecem não contar mais com a reversão espontânea. É sinal, também, de terem entendido que a alta das commodities está mais relacionada com o aumento da demanda global do que com movimentos especulativos. Sendo assim, o encarecimento das commodities (alimentos, petróleo, etc.) veio para ficar, com as consequências sobre o comércio e a inflação global.

Além disso, em vez de reconhecer as origens fiscais do problema (despesas correntes excessivas pelo setor público), o ministro Mantega preferiu enfatizar os efeitos que o corte orçamentário começou a produzir, o que não está tão evidente assim.

Tombini, por sua vez, reconheceu que a inflação do setor de serviços (assistência técnica, atendimento de saúde, cabeleireiro, viagens, etc.) está difícil de ser erradicada. Esse é o efeito direto da renda gerada pela expansão dos gastos públicos que, no entanto, não pode ser enfrentado nem com as tais medidas prudenciais, que procuram reduzir a expansão do crédito, nem pela redução do afluxo de dólares no mercado interno.

Dentro de mais algumas semanas provavelmente a inflação pulará para além dos 6,5% em 12 meses. Alguns sinais de alarme serão automaticamente disparados. E, então, talvez o governo sinta que tenha de fazer algo mais do que acionar os gogós disponíveis.

CONFIRA

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No primeiro trimestre, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) aumentou 217% sobre igual período de 2010. Esse afluxo não pode ser coibido com taxação do IOF, porque não interessa coibir investimentos. De todo modo, ajudou a puxar para baixo a cotação do dólar.

Um pouco mais. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta terça-feira que contava com a entrada líquida de US$ 60 bilhões em IED (23,9% a mais do que em 2010). O Banco Central espera menos, US$ 55 bilhões, ou 13,5%.