Convergência adiada

Convergência adiada

Celso Ming

27 de novembro de 2012 | 20h00

Desta vez não há quem aposte em alguma mudança nos juros básicos no fim da reunião do Copom, cuja primeira etapa começou nesta terça-feira e que terá segunda parte nesta quarta-feira. Prevalecerá, assim, a indicação do Banco Central de que a Selic se manterá no nível dos 7,25% ao ano “por um período de tempo suficientemente prolongado”.

Isso vem sendo apontado como indicação de que, ainda com os curtos-circuitos de comunicação, o Banco Central – presidido pelo economista Alexandre Tombini – continua, sim, conduzindo as expectativas e, nessas condições, permanece contribuindo para a eficiência do regime de metas de inflação.

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Tombini. Curtos-circuitos (FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS)

Mas não é bem assim. O principal objetivo do Banco Central na sua tarefa de conduzir as expectativas não é obter dos agentes econômicos convergência com suas projeções da Selic, mas a convergência em relação às suas projeções da inflação.

Em outras palavras, trata-se de levar o mercado a acreditar em que a inflação está embicando para a meta, que é de 4,5% neste ano e em 2013.

O Banco Central já desistiu de entregar a inflação na meta em 2012. Argumenta que foi surpreendido pelo choque externo dos alimentos, que, no caso, foi a disparada dos preços das principais proteínas vegetais em consequência da forte seca que dizimou as colheitas no Centro Oeste dos Estados Unidos.

O Banco Central também não vem assegurando a inflação na meta nem sequer em 2013. Somente afirma que os preços vão convergindo para a meta – “embora de forma não linear”. Cada qual entenda isso como quiser. Em todo o caso, pelos últimos levantamentos da própria instituição, o mercado vem trabalhando com uma inflação de 5,40% para todo o ano que vem.

Em termos estritos, o Banco Central não vem conquistando inteiramente a confiança do seu rebanho porque se expôs a riscos demais. Mesmo que seu objetivo inicial fosse derrubar os juros até um dígito (abaixo de 10%), tomou gosto nos resultados e seguiu em frente. Parou apenas nos 7,25%.

A alegação de que foi surpreendido pelo choque dos alimentos é desculpa fraca. A condução da política monetária tem de ser suficientemente sólida a ponto de poder amortecer impactos pouco relevantes como esse. Outras economias de países emergentes não foram nem arranhadas por uma inflação mais alta como reflexo desse choque. O Banco Central conduziu um caminhão carregado demais e teve estouro de pneu.

Outra questão, bem diferente, está em saber se não valeu a pena correr esses riscos. Provavelmente, sim. O Banco Central tinha de aproveitar a conjuntura externa favorável. Além do mais, a queda dos juros nas proporções em que ocorreu é, por si só, fator de mudança estrutural de grande importância – conforme esta Coluna já apontou aqui.

Produz consequências, no entanto. Toda a economia fica mais sujeita a choques externos, como se viu; a convergência da inflação para a meta dentro do ano-calendário – como determina a lei – fica comprometida; e, ainda mais do que tudo, está prejudicada a capacidade de condução das expectativas pelo Banco Central.

CONFIRA

Esta é a trajetória dos juros básicos (Selic). E tão cedo não haverá mudanças nesta curva. Talvez o Banco Central aproveite a reunião desta quarta para deixar mais claro até onde esses juros aguentam.

Come-cotas. O leitor Renato Cassola observa, com razão, que a expressão “come-cotas” não é empregada para designar o desconto de taxa de administração no patrimônio dos fundos de investimento – como a Coluna passada indicava –, mas para se referir ao recolhimento do Imposto de Renda semestral.