Crise de nervos

Crise de nervos

Celso Ming

08 de novembro de 2013 | 21h00

A economia tem dessas coisas paradoxais. Desde 2007, quando estourou a crise, o mundo espera ansiosamente pela recuperação da economia dos Estados Unidos. Quando se somam indícios nessa direção, os mesmos que desejaram ardentemente a virada deixam-se tomar por crises de nervos.

Não é difícil de entender o que está acontecendo e o impacto que as novidades podem ter para a economia brasileira. Quinta-feira, o mundo se surpreendeu com o forte avanço do PIB dos Estados Unidos no terceiro trimestre. Em termos anuais, foi de 2,8%, significativamente acima dos 2,0% esperados.

Nesta sexta-feira, os números do mercado de trabalho reforçaram a percepção de que a economia americana está engatando o segundo estágio do foguete. Num mês em que se esperava por um comportamento medíocre do emprego, porque o impasse político sobre o aumento do teto da dívida paralisara a administração Barack Obama e provocara demissões, foram criados 204 mil empregos, 70% a mais do que estava nos prospectos dos analistas.

Essa onda de apreensão que se desencadeou na economia mundial tem a ver com o aumento da probabilidade de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) comece a fechar os chuveiros por onde escorrem US$ 85 bilhões por mês para o mercado global.

Esse fluxo foi o esforço colocado em marcha em várias etapas pelo Fed com o objetivo de facilitar a recuperação da economia dos Estados Unidos prostrada pela crise. A reversão das emissões de dólares vinha sendo esperada para setembro e aparentemente só foi adiada porque os sinais eram de que o estado de fraqueza continuava.

Ainda não há decisão sobre o início do “tapering” (afunilamento), que é como os analistas globais vêm chamando essa futura operação de reversão de liquidez. Parece improvável que comece antes de 31 de janeiro, que é quando haverá a troca de guarda no Fed, do atual presidente, Ben Bernanke, pela hoje vice-presidente, Janet Yellen.

Em todo o caso, o mercado antecipa as coisas. A perspectiva de escasseamento de dólares já está provocando vagalhões: valorização do dólar em relação às outras moedas, alta dos juros (yields) dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, baixa nas bolsas e certa fuga das aplicações de risco.

Do ponto de vista da economia brasileira, há dois efeitos mais importantes. O primeiro é a nova tendência à alta do dólar no câmbio interno. Por conta disso, apenas nos primeiros seis dias úteis de novembro, o avanço das cotações do dólar em reais é de 3,8% (veja o Confira). Essa alta tende a ser reforçada pela necessidade que as empresas globais terão de comprar moeda estrangeira para remeter resultados para suas matrizes.

O segundo efeito é o encarecimento em reais dos preços dos produtos importados e seu desdobramento sobre a inflação. Deverá ser mais uma razão que levará o Banco Central a atuar sobre o câmbio e a puxar os juros básicos (Selic) para cima.

CONFIRA:

Este foi o avanço das cotações do dólar no câmbio interno nos seis primeiros dias úteis de novembro.

O  santo é de barro. Mesmo com o melhor desempenho do setor produtivo e do mercado de trabalho, é precipitado concluir que a crise esteja sendo superada. É preciso sentir o pulso da economia por mais tempo para fazer um diagnóstico mais seguro. Essa é a razão pela qual é improvável que a reversão da política monetária expansionista do Fed (o banco central dos Estados Unidos) comece em dezembro, como ontem sugeriram analistas internacionais.

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