Cristina pede bis

Celso Ming

25 de junho de 2011 | 16h30

Terça-feira, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, anunciou sua candidatura à reeleição. Enfraquecida e desunida, a oposição não vem conseguindo reunir condições mínimas que evitem sua própria derrota em outubro, ainda no primeiro turno.

Ou seja, os observadores preveem uma caminhada eleitoral sobre um tapete confortável. Contribui decisivamente para isso o desempenho da economia argentina que, na percepção do eleitor, o está beneficiando.

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Situação eleitoral confortável (FOTO: CELSO JUNIOR/AE)

Neste ano, os analistas esperam um crescimento econômico ao redor dos 6,5%, num ambiente em que o desemprego (de 7,3% da força de trabalho) é o mais baixo dos últimos 30 anos e o poder aquisitivo real segue crescendo.

A inflação é problema, mas até agora não atrapalhou o jogo do governo. As estatísticas são manipuladas pelo Indec, organismo do governo. Mas os analistas são unânimes em apontar números bem mais altos, em torno dos 20%. A consultoria Abeceb, por exemplo, conduzida pelo ex-secretário da Indústria Dante Sica, aponta avanço do custo de vida de dois dígitos pelo sexto ano consecutivo. Para 2011, projeta alta de preços de 25%, quase o triplo do que dizem projeções oficiais – fato que lhe está custando a imposição de pesada multa por parte do governo.

Apesar disso, ao lado da expansão das exportações garantidas pelas compras da China e do Brasil, a demanda interna de bens e serviços segue como grande mola do crescimento econômico do país. Entre 2003 e 2010, o consumo (veja gráfico) cresceu 70,4% (6,9% ao ano), graças à agressiva política de rendas (congelamento de preços e aumentos, acima da inflação, de salários e aposentadorias). Há mais fatores que favorecem a alta da procura: juros reais negativos (que desestimulam a poupança e empurram o consumo); congelamento de tarifas de transportes, de combustíveis e de energia; e cobrança do Imposto de Exportação (retenciones) sobre alimentos, que obrigam o produtor a vendê-los internamente abaixo do preço internacional. Também não dá para desprezar o efeito sobre o consumo provocado pela valorização do peso, o que contribui para elevar o salário real. Entre junho de 2006 e final de 2010, houve valorização do peso de 32% em relação ao dólar. Como no Brasil, a valorização usada como âncora anti-inflacionária está tirando competitividade da indústria.

O congelamento dos preços, a excessiva valorização do peso e o Imposto sobre Exportações desestimulam os investimentos, especialmente, na área de energia. A indústria trabalha hoje quase no teto da capacidade instalada, na média, acima dos 80%. Mas há setores (metalurgia e borracha) operando além dos 90%.

A área fiscal (balanço entre receitas e despesas do governo central) também enfrenta forte erosão. De 2010 para cá, pelos cálculos de Dante Sica, os subsídios ao setor privado aumentaram 107%. Não há condições para aumento da carga tributária, especialmente em período pré-eleitoral, e isso dificulta a capacidade do governo argentino de manter o superávit orçamentário necessário para conter as atuais condições de falta de acesso ao mercado financeiro internacional.

Mas esses problemas não chegam a ser percebidos pelo eleitor ou não serão obstáculo relevante à reeleição de Cristina Kirchner.

CONFIRA

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O gráfico acima mostra como tem evoluído o consumo, principal impulsionador do PIB na Argentina.

É ele. Mario Draghi, italiano de 63 anos, atual governador do Banco da Itália (banco central), será, por oito anos, o presidente do Banco Central Europeu, a partir de 1º de novembro. Draghi foi o principal executivo na Europa do Banco Goldman Sachs, o banco americano de negócios que assessorou o governo da Grécia a camuflar com “contabilidade criativa” parte do seu rombo fiscal.