Curto-circuito

Celso Ming

26 de março de 2010 | 19h35

Já havia certa desproporção na decisão do Copom tomada dia 17. Agora, o conteúdo da ata divulgada quinta-feira sugere a existência de uma desproporção entre os fatos e a decisão tomada que pode provocar um curto-circuito na condução da política de juros.

A primeira desproporção aparecera na votação dos diretores do Copom. Foram 5 votos a favor da manutenção dos juros (Selic) no nível de 8,75% ao ano e 3 votos a favor da alta imediata dos juros. E os três que se manifestaram pela alta imediata nem levaram em consideração a hipótese de um ajuste de 0,25 ponto porcentual ao ano. Optaram de uma vez por uma alta de meio ponto.

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A segunda desproporção transpareceu da leitura da ata. No parágrafo 26 ficou dito que houve consenso para que o Copom providenciasse um ajuste dos juros. Mas, no parágrafo seguinte, ficamos sabendo que “a maioria (…) entendeu ser mais prudente aguardar a evolução do cenário macroeconômico até a próxima reunião do Comitê”.

Fica assim admitido que, se for positivo o cenário macroeconômico que se apresentar na reunião de abril (agendada para o dia 28), o ajuste poderá não ser mais necessário. Isso contraria a conclusão anterior, de consenso, de que é necessário o ajuste.

A ata mostrou que há duas pressões sobre a trajetória dos preços. A primeira delas provém da alta das commodities, que já se traduziu no esticão de 2,3% nos preços no atacado apenas nos dois primeiros meses do ano. Agora, fica inevitável a transferência (pass-through) da alta no atacado para o varejo (custo de vida). Só não se sabe ainda em que proporção.

A outra pressão é interna e tem a ver com “impulso fiscal e creditício sobre a evolução da demanda doméstica”. Há duas fontes de “impulso fiscal”. Há os efeitos da redução de impostos sobre veículos, aparelhos domésticos e material de construção que começam a ser retirados; e o governo gastando demais, criando renda. Por todos esses fatores, o consumo interno cresce perigosamente acima da capacidade de oferta de bens e serviços, o que, por sua vez, produz uma inflação mais alta do que a admitida pelo centro da meta que, neste ano, é de 4,5%.

Pode haver alguma dúvida sobre a natureza dessas pressões: se são apenas transitórias e, portanto, reversíveis num prazo curto, como são os incentivos fiscais; ou se são pressões permanentes. Se forem reversíveis, não haveria necessidade de puxar pelos juros imediatamente. Mas, nesse caso, não haveria também motivo para consenso para a opção pelo ajuste dos juros.

Há duas hipóteses de explicação para o que se identifica como contradição da ata. Ou houve aí um erro de comunicação, o que, por si só, é grave quando se leva em conta a importância da condução das expectativas dos formadores de preços na execução da política de metas de inflação.

Ou, então, os diretores já estão esperando pela mudança do presidente do Banco Central. Nesse caso, quem assumir o mandato-tampão teria mais condições de passar o recado de que não é pau mandado se der, logo de cara, uma paulada nos juros de meio ponto porcentual ou até de mais do que isso.

Confira

Acabou a euforia – Em outubro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, justificou a imposição de um IOF de 2% sobre a entrada de capitais com o argumento de que era preciso conter um excesso de euforia no mercado de ações. Os últimos lançamentos mostraram que não há mais o mesmo entusiasmo.

E, no entanto, o governo precisa do sucesso das subscrições do aumento de capital do Banco do Brasil e da Petrobrás. Afora isso, o País precisa de entrada de capitais para financiar o déficit em conta corrente. Significa isso que o ministro Mantega terá de remover o IOF de 2%?

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