Depois de Belo Monte

Celso Ming

23 de abril de 2010 | 19h19

Se o Brasil quer um crescimento da economia da ordem de 5% ao ano, até 2030 terá de dobrar sua capacidade de geração de energia elétrica, que hoje é de 110 mil MW, concentrada principalmente em usinas hidrelétricas, em cerca de 70% (veja gráfico).

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O potencial de construção de grandes hidrelétricas ainda não está esgotado. Mas as enormes dificuldades para construí-las, como se viu no caso do leilão da Usina de Belo Monte, geram a pergunta do momento: o que deve ser feito para evitar futuros apagões?

José Goldemberg, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE/USP), avisa que é preciso investir mais em conservação e ter mais cuidado com eficiência energética, hoje negligenciada. Isso posto, há outros dois subsetores a explorar: energia eólica (produzida pelos ventos) e bioenergia, a partir do aproveitamento do bagaço da cana.

“O governo está dizendo que energia eólica é cara demais. Mas a usina de Belo Monte também não é? O potencial de bioenergia é uma Itaipu adormecida. Somente no Estado de São Paulo dá para gerar 10 mil MW, se forem empregadas tecnologias modernas.”

Apesar disso, Goldemberg é dos que continuam acreditando no potencial hidrelétrico, o filé mignon do setor. Ele pede mudança de foco, ou seja, pede investimento prioritário em mini usinas, ou pequenas centrais hidrelétricas (PCHs): “Pode-se construir milhares delas no Brasil, com impacto ambiental mais reduzido do que a de uma usina de grande porte, como a de Belo Monte. As PCHs quase não precisam de reservatório.” Mas ele critica as autoridades da área ambiental: “O Ibama continua fazendo exigências demais e se perde na burocracia.”

Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), concorda com Goldemberg em que seja preciso investir em PCHs e hidrelétricas de médio porte, mas discorda do outro ponto: para um mesmo potencial de geração, o impacto ambiental conjugado produzido por PCHs, ainda que menos centralizado, é maior do que o causado por usinas de grande porte.

Diversificação

Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), observa que a matriz energética está excessivamente dependente das fontes hidrelétricas de energia. Ele pede mais diversificação, com base em apostas no potencial que é diferente de região para região: “Por exemplo, o Sudeste pode explorar a produção de energia por meio da utilização do bagaço da cana-de-açúcar. O Nordeste deveria concentrar-se na produção de energia eólica.”

Ele ainda insiste: não se pode desistir de grandes projetos como o de Belo Monte, é preciso utilizar mais os projetos de pequeno porte e não se deve descuidar das novas fontes de energia. “O governo não pode olhar tudo com esse viés estatizante. Deve deixar que o mercado funcione.”

Célio Bermann, também professor do IEE da USP, argumenta de um jeito diferente. Para ele, o investimento da Usina de Belo Monte deve ser recalculado para o total de R$ 36 bilhões, mais do que os R$ 30 bilhões apontados pelas empreiteiras e muito mais do que os R$ 19 bilhões avaliados pelo governo.

É que aceita a avaliação das empreiteiras e acrescenta a ela os R$ 6 bilhões correspondentes a renúncias fiscais (redução de impostos) já decididos pelo governo. Assim, conclui Bermann, o investimento total na Usina de Belo Monte corresponde a R$ 3,2 mil por KW instalado. “É um custo muito próximo dos observados na construção de usinas eólicas e de biomassa. E é por aí que temos de ir.”

Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), avisa: “Energia é uma questão estratégica. Em 25 anos o Brasil já terá esgotado todo o seu potencial hidrelétrico. Será preciso optar por uma matriz energética mais diversificada.”

Além das apontadas acima, Castro sugere as termoelétricas a gás natural por meio da utilização das jazidas do pré-sal. No Peru, essa é a fonte de 61% da energia elétrica (aqui não chega a 2%). E não exclui a expansão das termoelétricas por fissão nuclear. “É uma energia segura e limpa cuja tecnologia o Brasil detém. Terá mais importância no futuro.”

COLABOROU ISADORA PERON

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