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Desindustrialização

Celso Ming

25 de dezembro de 2010 | 16h00

Quem ouve os pronunciamentos dos líderes da indústria às vezes tem a sensação de que está quase tudo errado na política econômica, que o País está em franca desindustrialização e que o empresário brasileiro vai morrendo um pouco por dia, como os assassinados com arsênico.

Eles olham para a participação da indústria no PIB, que era de 38,7% em 1990 e agora é de 25,4%, e para a participação de produtos industrializados no total exportado, que era de 71,9% em 1990 e hoje não passa de 53,5%, – e concluem que a desindustrialização é inexorável como a morte dos zangões depois do enxameamento da colmeia.

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Em seguida, acusam o governo pela política econômica contrária aos interesses da indústria e pela falta de combate ao dumping praticado pelos chineses. Culpam a perversidade do Banco Central pelos juros escorchantes e pela excessiva valorização do real. Sobra, também, para os assessores de imprensa, que não estariam conseguindo fazer a cabeça dos formadores de opinião.

O erro desses dirigentes é tanto de diagnóstico como de escolha do tratamento. É uma insensatez insistir na tese da desindustrialização quando o consumo interno cresce a mais de 10%; o desemprego ficou reduzido a meros 5,7% (veja o gráfico), menor nível da história; o Investimento Estrangeiro Direto (IED) ultrapassará os US$ 38 bilhões neste ano e os US$ 45 bilhões em 2011; as importações de máquinas e equipamentos crescem a 38% e alcançarão os US$ 4 bilhões; a carteira de empréstimos do BNDES foi de R$ 283 bilhões em 2009 e será de R$ 360 bilhões em 2010; as exportações de produtos manufaturados, os mais sensíveis ao câmbio valorizado, avançam a 19% ao ano; a indústria automobilística tem seu melhor ano da história; e a capacidade ociosa da indústria está reduzida a 15% (veja o Entenda).

O que dá para dizer é que outros setores da economia estão crescendo mais do que a indústria, especialmente o de serviços e o agronegócio, e esse é o principal fator que explica o mergulho da participação da indústria no PIB.

Não dá para negar a persistência dos demais problemas, alguns deles graves. A concorrência asiática (e não só a chinesa) é enorme; a desvalorização do yuan foi de mais de 50% em quatro anos e não dá para derrubar os custos de produção nessa proporção; a crise está empurrando para cá industrializados produzidos em países que nem de longe enfrentam as limitações do Brasil; os custos da mão de obra estão disparando; a indústria mal e mal consegue melhorar sua competitividade; alguns setores tendem a desmilinguir.

Tudo isso é verdade, mas é preciso combater as causas e não as consequências ou apenas os efeitos colaterais. O verdadeiro inimigo não são os juros escorchantes ou o câmbio fora de lugar. São as excessivas despesas públicas; é a carga tributária elevada demais; é a precariedade da infraestrutura local; são os apagões das reformas: a política, a tributária, a da Previdência e a do sistema trabalhista.

A indústria precisa de ajustes para enfrentar novos tempos, especialmente os de uma economia brasileira forte, baseada na produção intensiva de commodities, que vai pedir, também, uma moeda forte e uma indústria ainda mais forte – e não o contrário.

ENTENDA

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O gráfico mostra o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria de transformação calculado tanto pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) como pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Expansão forte. Quanto mais próximo o Nuci estiver de, menos capacidade ociosa tem uma indústria. Esse índice indica, também, necessidades de investimento. Quanto menor a capacidade ociosa de instalações, equipamentos e máquinas de uma indústria, mais o futuro aumento de produção exigirá investimentos.

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