Desvio de foco

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Desvio de foco

Celso Ming

12 de abril de 2014 | 17h00

Em visita na semana passada a São Paulo, o ministro das Finanças do Reino Unido, George Osborne, fez uma advertência não só ao Brasil, mas também a outros emergentes: “O modelo econômico baseado em produção de bens que a China já produz não é mais sustentável”, disse ele.

Pois é exatamente esse o objetivo da chamada política industrial do governo Dilma. É defender-se do produto chinês – entendido esse vocábulo gentílico no seu sentido mais amplo –, e não garantir redução de custos ao produto nacional, especialmente nos setores em que o Brasil tem mais condições de competir. Às vezes, essa política protecionista é travestida de defesa do emprego, o que também é um desvio porque, se for mesmo para defender o emprego, o governo teria de ajudar mais o setor de serviços, que ocupa cerca de 70% da mão de obra do País.


Osborne. Aviso aos emergentes (FOTO: Joshua Roberts/Reuters)

A advertência de Osborne não foi a única feita na semana passada, no interesse da indústria. Em palestra feita na 27.ª edição do Fórum de Liberdade realizado terça-feira em Porto Alegre, o empresário Jorge Gerdau bateu em outra deformação da política econômica, que é a falta de abertura de mercados para o setor produtivo no exterior. Ele criticou o que chamou de “Mercosul bolivariano”, que é a insistência em manter acordos de natureza política com a Venezuela e com a Argentina, ainda que esses tratados sejam seguidamente perfurados, pela incapacidade de parte a parte em competir até mesmo dentro do bloco, e o desinteresse por negociações comerciais com centros de consumo que realmente contam para o setor produtivo nacional.

Não foi o governo Dilma que iniciou por aqui o processo de reservas de mercado para o setor produtivo local. Mas tenta aprofundá-lo para alguns setores, mesmo que exigências de “conteúdo local” encareçam ou retardem demais a produção. Este governo aprofundou, também, a distribuição de créditos subsidiados a futuros campeões nacionais, grande parte dos quais poderia dispensar os recursos do BNDES, porque já dispõe de capital ou de fontes próprias de crédito. Este governo se empenhou, também, em desonerar contribuições sociais, operação que custou mais de R$ 40 bilhões anuais aos cofres públicos sem resultado relevante para o setor produtivo. No mais, multiplicaram-se os apelos aos bancos, para que reduzissem os juros dos seus empréstimos; e aos empresários, para que investissem e, enfim, soltassem seu espírito animal. Até mesmo a convocação para participação nos leilões de concessão de serviços públicos não teve força enquanto o governo entendeu que o empresário deveria ter uma remuneração até mesmo inferior à proporcionada a qualquer um que aplicasse seu dinheiro no mercado financeiro.

Se essa política apresentou resultados, esses foram pouco significativos. As lideranças continuam se queixando de que o processo de desindustrialização não foi estancado e que a desvalorização cambial (alta do dólar) foi de longe insuficiente para devolver competitividade ao setor produtivo.

O empresário também tem responsabilidade nisso, porque não se rebela, atitude que o próprio Gerdau sugere à população mal servida de serviços de infraestrutura. Ao contrário, o empresário parece conformado quando recebe um prato de pirão e um pacotinho de caramelos que o governo está sempre pronto a servir para os mais chegados.

CONFIRA:

Base de comparação

Quando se defende das críticas de que o crescimento econômico tem sido medíocre, o governo Dilma puxa pelas estatísticas internacionais e argumenta que, apesar de tudo, o Brasil está entre as economias que mais crescem neste mundo em crise. Mas, quando responde às críticas por inflação alta demais, o governo não tem o mesmo argumento, porque a inflação no resto do mundo é baixa. Nos Estados Unidos, está em 1,7% ao ano; na área do euro, em 0,9%; na China, 2,8%; no México é de 4,2%; na Austrália, 2,8%; no Chile, 3,2%; e na África do Sul, 5,7%.

Teto ameaçado

O problema é que a inflação, que atingiu em março o nível de 6,15% acumulados em 12 meses, deve estourar o teto da meta de 6,5%, neste mês ou, no mais tardar, em maio. Mais a inflação está nesse patamar apesar de uma puxada dos juros básicos (Selic) que, em 11 meses, acumularam uma alta de 3,75 pontos porcentuais ao ano; e apesar do represamento dos preços administrados, que já dura mais de 24 meses.