Devagar demais

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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Devagar demais

Celso Ming

06 de março de 2014 | 21h00

A balança comercial fechou o primeiro bimestre do ano ostentando um rombo de US$ 6,2 bilhões. Embora alto, é menor do que a maioria dos analistas esperava para o período.

O mau comportamento desse setor poderia reforçar as projeções de que todo o conjunto das contas externas (que incluem outras faturas em moeda estrangeira) esteja em deterioração. E, nessa área, apesar da baixa participação das exportações no PIB (menos de 13%), deterioração é coisa séria, dentro do princípio enunciado pelo professor Mário Henrique Simonsen de que “a inflação aleija, mas o câmbio mata”.

No entanto, é cedo para uma avaliação confiável. Primeiro, porque o Ministério do Desenvolvimento deixou de ser transparente nesses dados. Passou a usar um conjunto errático de garrafinhas que enche e esvazia conforme precise apresentar ou não resultados. No final de 2012, por exemplo, deixou de fora importações de US$ 4,5 bilhões de petróleo e derivados que só foram contabilizadas ao longo de 2013, porque o governo decidiu mostrar serviço.

Em 2013 houve as exportações de plataformas de petróleo, de US$ 7,7 bilhões, que não saíram do País, embora tivessem gerado faturamento da Petrobrás local sobre a Petrobrás do exterior.

O ano começa com outra complicação: as importações de óleo diesel destinadas às termoelétricas, hoje acionadas para suprir a quebra de geração hídrica. A mesma seca vai derrubando a colheita de grãos. Não se sabe ainda até que ponto essa queda de produção será compensada com aumento dos preços.

Também não se conhece o impacto da desvalorização do real (alta do dólar), que em 12 meses está em torno de 18%. As autoridades da área econômica vêm repetindo que um dólar mais caro em reais levará a indústria a recuperar sua capacidade de exportar.

Até agora este é efeito pouco claro. Nos dois primeiros meses do ano (em relação ao mesmo período de 2013), as exportações de industrializados, em vez de subirem, caíram 6,1%, e a de manufaturados, 5,6%. Há poucos setores tão protegidos no Brasil quanto o de veículos. Conta com uma tarifa alfandegária que aumenta em 35% os preços de importação e com os benefícios do InovarAuto, que eleva em 30 pontos porcentuais o IPI de veículos importados fora do Mercosul e do México; e passou a tirar proveito dos 18% correspondentes à desvalorização do real já citada. Ainda assim, as exportações de veículos brasileiros em dezembro e janeiro registraram queda. (Não saíram os dados de fevereiro.)

O fator câmbio deveria trabalhar também no lado das importações, na medida em que encareceu em reais o produto importado. O problema aí é que a indústria parece tão dependente do suprimento externo de peças, componentes, matérias-primas, etc., que, em vez de dar mais competitividade, o dólar mais caro em reais pode estar tirando.

Outro fator limitador das exportações do País é a derrapada da economia argentina que, em 2013, importou 8% de tudo o que o Brasil exportou. A queda das exportações para lá nos primeiros dois meses do ano foi de 16%, o dobro do que em todo o Mercosul (veja o Confira).

CONFIRA:

O gráfico mostra o comportamento dos principais mercados do Brasil nos dois primeiros meses de 2014 comparados com mesmo período de 2013.

Copom. O Banco Central divulgou nesta quinta-feira a Ata do Copom. De mais relevante, ficou a impressão de que a autoridade monetária é refém do que vem vindo aí. Está especialmente focada no curto prazo. Se a inflação permanecer forte e excessivamente espalhada, continuará a puxar pelos juros. Se der o contrário, pode até encerrar o ciclo de alta por aí mesmo. A conferir.

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