Dilma e o tsunami

Dilma e o tsunami

Celso Ming

24 de setembro de 2012 | 20h00

Em seu discurso que abrirá nesta terça-feira a 67.ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a presidente Dilma Rousseff criticará os bancos centrais dos Estados Unidos, da área do euro e do Japão por suas impressionantes injeções de moeda na economia mundial.

Desde março, Dilma condena o que chama de tsunami monetário e seus efeitos sobre os países emergentes – especialmente o Brasil. Parte desses despejos de moeda acaba por desembarcar por aqui e produz valorização do real (baixa das cotações das moedas estrangeiras), cujo efeito prejudicial é tirar competitividade do produto nacional.

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Dilma. Nova ofensiva na ONU (FOTO: HELVIO ROMERO/AE)

Enfim, a presidente Dilma está reforçando as denúncias que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vem repetindo contra o que ele classifica como guerra cambial, deflagrada pelos países ricos e comentada por esta  Coluna (clique aqui).

Se incluir o Banco Central Europeu (BCE) entre as causas do tsunami monetário, a presidente Dilma estará cometendo um equívoco técnico. Embora tenha de fato anunciado emissões ilimitadas de moeda que se destinarão a resgatar títulos de dívidas sob forte rejeição nos mercados, o presidente do BCE, Mário Draghi, garantiu também que essas operações serão esterilizadas. Ou seja, serão acompanhadas de retiradas equivalentes de moeda, por meio de injeção de outros títulos. Portanto, não se poderá acusar o BCE de inundar com euros os mercados.

Isso parece indicar que, embora generalizadas, as críticas da presidente Dilma têm por objetivo específico atacar as operações de afrouxamento monetário (quantitative easing), agora na fase número 3, realizadas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Em princípio, essa ofensiva brasileira – que, além das denúncias de guerra cambial feitas pelo ministro Mantega, também envolve as pressões feitas pelo Itamaraty – terá baixa receptividade internacional. A ação dos grandes bancos centrais, principalmente a do Fed, vem sendo aplaudida no mundo inteiro. Está sendo vista como atitude corajosa, destinada a tirar a economia mundial da estagnação e, dessa maneira, garantir capacidade de exportação aos emergentes.

Tanto a presidente Dilma como o ministro Mantega vêm insistindo em que essas emissões de moeda não têm sido eficazes para promover a reativação da economia global e, assim sendo, deveriam ser vistas como inúteis. Mas geram o efeito colateral nocivo de tirar competitividade do setor produtivo dos países emergentes.

O presidente do Fed, Ben Bernanke, vem contra-argumentando que as operações de afrouxamento quantitativo são, sim, eficazes – na medida em que impedem o agravamento da crise. Não fossem elas, afirma ele, a recessão teria se transformado em catástrofe de proporções ainda mais vastas.

Nem a presidente Dilma nem o ministro Mantega desconhecem essas razões. No entanto, deliberaram reforçar a retórica do tsunami monetário e/ou da guerra cambial, provavelmente para justificar as atitudes protecionistas tomadas pelo governo brasileiro, que têm sido fortemente condenadas pelos dirigentes dos países avançados, sobretudo pelo governo dos Estados Unidos.

CONFIRA

No gráfico, a evolução da dívida pública federal em cada mês de agosto dos últimos 7 anos.

Começou. Depois de anos e anos tentando justificar os juros escorchantes cobrados nas operações rotativas do cartão de crédito, o Bradesco, afinal, se rendeu às pressões do governo Dilma. Anunciou nesta segunda-feira a redução dos juros. O diretor Marcelo Noronha avisou que a perda de receitas com a redução dos juros será compensada com aumento da escala (mais clientes). Se vale a pena, por que os juros não foram reduzidos antes?