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Dilma e seus desafios

Celso Ming

18 de dezembro de 2010 | 16h00

O governo da presidente Dilma começa sem os problemas de confiança enfrentados por Lula no início do seu primeiro período. E essa é uma boa vantagem.

No entanto, os desafios que se antepõem ao longo do primeiro mandato serão provavelmente maiores do que os peitados pelo presidente Lula.

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Dilma. Enfrentar os fisiológicos (FOTO: Dida Sampaio)

Começa com o fato de que Dilma não é Lula. Não tem o mesmo carisma e provavelmente terá mais dificuldades para dobrar a selvageria política de uma boa parte de sua base de sustentação, que atua dentro dos conhecidos critérios fisiológicos e está acostumada a fazer cobranças pouco leais ao longo do jogo.

Boa pergunta consiste em saber se a presidente Dilma terá a mesma capacidade de segurar as rédeas se estourar um desses escândalos que atacaram a administração Lula, como o do mensalão, o dos aloprados ou, mesmo, o da Operação Satiagraha.

O primeiro desafio é, portanto, político. Não se trata de enfrentar uma oposição combativa, que hoje não existe. Trata-se da capacidade de manter um mínimo de coordenação da base de sustentação no Congresso e na rede de governadores num ambiente de disputa acirrada por verbas públicas bem mais escassas do que estiveram ao longo dos dois últimos anos.

Dilma está sendo chamada a pilotar o País em 2011, num ambiente de fortes incertezas externas, tendo de pisar mais no freio do que no acelerador. O crescimento do PIB dificilmente poderá passar dos 4,5% a 5,0% ao ano. A inflação está bem mais acirrada e dificulta o objetivo já anunciado de derrubar os juros reais para 2% até 2014.

A enorme agenda de investimentos prevista pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de R$ 1,59 trilhão em quatro anos, terá de ser conduzida numa situação em que nem o setor público (especialmente o Tesouro) nem o BNDES estarão em condições de dar cobertura financeira como vinham dando até meados deste ano.

Parece também consolidada a percepção de que a cotação do dólar em reais não pode cair muito abaixo de R$ 1,70, sob pena de provocar grave deterioração na capacidade de competição do produto brasileiro. Isso significa, também, que está praticamente esgotada a possibilidade de contar com o uso do câmbio como âncora dos preços. É bom esclarecer que, durante o governo Lula, o Banco Central não manobrou o câmbio de modo a usá-lo como instrumento de controle dos preços. No entanto, na medida em que mergulhou de R$ 1,80 no início de 2007 para R$ 1,70 nos últimos meses da administração Lula, a cotação do dólar ajudou a conter a inflação, uma vez que barateou os produtos importados. Esse efeito colateral positivo já ficou bem menos importante.

No mais, Dilma tem pela frente uma imensa pauta de reformas: reforma tributária, previdenciária, política, sindical e trabalhista e tantas outras mais. Se não as enfrentar no primeiro ano de mandato, enquanto contar com alto apoio amealhado por mais de 55 milhões de votos, dificilmente conseguirá sucesso nessa empreitada. A maioria dessas reformas implica altos custos políticos. E, no entanto, em 2012 haverá eleições municipais, ambiente que dificultará aprovações de custo popular. E 2013 e 2014 serão anos que exigirão novas costuras eleitorais.

CONFIRA

Texto hermético. A ata do Copom divulgada quinta-feira foi a 155ª da história do sistema de metas de inflação. Mas foi uma das que mais confundiram. Houve aqueles que entenderam que os juros subirão em janeiro; os que leram lá que não subirão tão cedo, nem em março; e aqueles que concluíram que os juros talvez não subam nem no primeiro semestre.

O que é transparência? Para uma instituição que precisa administrar as expectativas de inflação entre os “fazedores de preço”, digamos que esse não foi um momento que primou pela transparência.

Vinho ecológico? Na edição de sexta-feira, o jornal madrilenho El País perguntava: “Até que ponto é ecologicamente correto um vinho que se produz na Espanha e se consome a vários milhares de quilômetros e que por isso exige transporte que queima energia e produz emissões de CO2 na atmosfera?” É uma pergunta que pode ser feita para qualquer produto supostamente ecológico de exportação.

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