Doença holandesa (1)

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Doença holandesa (1)

O ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges, teme que a doença holandesa condene o Brasil ao raquitismo industrial

Celso Ming

11 de julho de 2014 | 21h00

Desta vez, é o ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges, quem teme que a doença holandesa condene o Brasil ao raquitismo industrial. Foi o que ele manifestou há uma semana, em Brasília. (Veja, no Confira, o conceito original de doença holandesa.)

Quem pensa assim entende que o Brasil está descambando para uma espécie de inevitabilidade de um câmbio baixo demais em consequência do aumento das exportações de commodities. Essa inevitabilidade tenderia a se exacerbar dentro de mais uns cinco anos, quando o Brasil se tornará importante exportador de petróleo.


Borges. Raquitismo radical (FOTO: Dida Sampaio/Estadão)

Assim, excessivamente valorizado diante das outras moedas estrangeiras, o real acabará barateando mercadorias e serviços importados. Como consequência, o produto industrial brasileiro, caro demais em reais, não consegue competir com o de outros países, tanto aqui como no exterior e ainda menos conseguirá dentro de mais alguns anos, se nada se fizer para reverter essa sina. Assim, de acordo com esse diagnóstico, a indústria tende a se desidratar. É o efeito que os dirigentes da Fiesp preferem chamar de “processo de desindustrialização do Brasil”.

O economista brasileiro que mais insiste no diagnóstico da doença holandesa é o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira. Para que o Brasil não se transforme num fazendão, Bresser-Pereira prega, com fervor de profeta, duas providências imediatas: (1) desvalorização do real, hoje em torno dos R$ 2,20 por dólar, para R$ 3,00 por dólar, nível que devolveria condições de competitividade à indústria; e (2), para financiar a compra de dólares pelo Banco Central de modo a evitar novas valorizações, criação de um imposto sobre exportação (confisco) de commodities.

Ele argumenta que esse confisco não quebraria nem o agronegócio nem o produtor de minérios e petróleo, porque, na mesma proporção que perdesse com a mordida federal, o produtor de commodities seria automaticamente compensado com aumento das cotações do dólar.

Mas Bresser conhece bem a resistência a propostas desse tipo. Em artigo publicado dia 4 de julho no Valor Econômico, lamenta a baixa receptividade: “Nem os economistas de esquerda nem os de direita se dispõem a enfrentar o problema. Os de esquerda rejeitam a desvalorização inicial, porque ela aumentará temporariamente a inflação e reduzirá no curto prazo os salários (o que é certo), e acreditam que aumentará a desigualdade (o que é falso), porque reduzirá não apenas o salários, mas todos os rendimentos. Os ortodoxos também a rejeitam, porque ela aumentará temporariamente a inflação e causará dificuldades para as empresas endividadas em dólar”.

A questão é bem mais complicada, por vários motivos. Aqui vão dois. Primeiro, porque há razões para não aceitar o diagnóstico de doença holandesa e, portanto, também não aceitar a terapia recomendada; segundo, porque uma forte desvalorização cambial destinada a salvar a indústria implicaria decisões que poderiam desequilibrar toda a economia, não contribuir para salvar a indústria e aprofundar o grau de incerteza e a derrubada dos investimentos. Mas isso precisa de uma nova Coluna. Até amanhã.

CONFIRA:

O gráfico mostra a perda de participação da indústria no PIB do Brasil nos últimos 14 anos.

Valorização do florim

Doença holandesa não tem nada a ver com o jogo deste sábado. Apareceu nos anos 70 quando a Holanda passou a exportar suas reservas de gás natural descobertas no Mar do Norte. As receitas em moeda estrangeira cresceram uma enormidade. Como houve mais interessados em trocar dólares por florins do que o contrário, o resultado foi uma forte valorização cambial (baixa do dólar em florins) que derrubou a competitividade da indústria.

 

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