Dois anos de recuo

Dois anos de recuo

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, admitiu que 2014 pode ter terminado com uma queda do PIB. Não chegou a adiantar algo parecido em 2015, mas nem precisou.

Celso Ming

19 Fevereiro 2015 | 21h00

É recessão atrás e recessão à frente. E não há como mudar essa paisagem.

Na última quarta-feira, em palestra a investidores em Nova York, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, admitiu que 2014 pode ter terminado com uma queda do PIB. Não chegou a adiantar algo parecido em 2015, mas nem precisou.

Não há analista que não trabalhe com um recuo ainda maior do crescimento econômico em 2015. A Pesquisa Focus, do Banco Central, mostrou que, há uma semana, a projeção média dos analistas era de retração em 2015 de 0,42%.

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Levy. PIB, encolhendo. Foto divulgação

 

Quanto aos resultados finais de 2014, o IBGE só vai divulgá-los em 27 de março. Antes disso, não há como medir de maneira confiável o que aconteceu no ano passado. Mas há mais do que simples estimativas de que em 2014 houve encolhimento da renda brasileira.

Na semana passada, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), do qual se espera que adiante os resultados do PIB, já havia mostrado números negativos no ano passado: queda do PIB de 0,14%. Pode ter sido ainda mais baixo, fator que poderá acentuar ainda mais o arrasto negativo para os trimestres seguintes.

O segmento dos economistas que se intitulam “desenvolvimentistas”, os mesmos que se pronunciaram por meio de dois manifestos de condenação da atual política, afirma que a nova opção do governo Dilma produzirá recessão. Não tem cabimento essa conclusão. A política econômica que produziu recessão mais um impressionante volume de distorções da economia foi a que vigorou no primeiro governo Dilma. Seus efeitos se prolongam nos meses seguintes. Essa política não apenas arrochou o crescimento presente. Também matou o crescimento futuro, na medida em que atrofiou o investimento, semeou incertezas e derrubou a confiança dos que produzem renda nacional. Por mais tautológico que possa parecer, o atual regime de ajuste não teria sido necessário se a economia não estivesse desajustada.

É inegável que o atual reforço dos fundamentos da economia desembocará no aprofundamento da recessão. Mas seu sentido é outro. É o da aplicação de antibióticos e de terapia corretiva dolorosa, que pode até mesmo agravar o estado clínico do paciente. Mas, lá na frente, possivelmente apenas a partir de 2016, deverá virar o jogo hoje perdedor, colocado em prática pela tal nova matriz macroeconômica conduzida pelo ministro Guido Mantega.

O que tem de ser perguntado é se esse quadro de recessão não vai se estender para além de 2016. Há razões para a dúvida. O emprego de gradualismo na correção das distorções pode prolongar o período de ajuste. Além disso, o investimento continua insatisfatório, não há segurança sobre a oferta suficiente de energia e falta mão de obra para um crescimento mais forte. Enfim, a política anterior derrubou o crescimento potencial.

De mais a mais, não há opção. Não cabem políticas anticíclicas, que impliquem distribuição de recursos e grandes desonerações, quando o Tesouro está quebrado, como agora. E emitir moeda para pagar as contas, numa conjuntura em que a inflação dispara para acima dos 7% em 12 meses, a gente já sabe aonde vai dar.

CONFIRA

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Esta foi a evolução da cotação do dólar no câmbio interno em fevereiro. Até esta quinta-feira, a alta foi de 6,7%.

Queda de braço

Até esta quinta-feira não havia sinal de que sairá um acordo entre o governo da Grécia e a área do euro sobre o prolongamento do programa de ajuste. As autoridades da Alemanha afirmam que o texto apresentado pelo ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, “é vago”. Não apresenta o compromisso de observar as metas do acordo em vigor. Aparentemente, querem que o novo governo da Grécia desdiga o que disse na campanha eleitoral.

 

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