É a colheita boa

Celso Ming

12 de fevereiro de 2010 | 19h46

Na semana passada, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) anunciou que o Brasil terá nesta temporada a segunda maior safra de grãos de sua história: chegará a 143,1 milhões de toneladas, 5,9% maior que a anterior.

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Não era essa a expectativa em outubro do ano passado, quando o IBGE projetava algo em torno de 139,0 milhões de toneladas e a Conab, de 140,0 milhões. Depois vieram as chuvas e os especialistas chegaram a temer por novo fator de quebra da produção. Mas o resultado será bem diferente disso, para melhor.

A principal novidade é a de que o aumento da safra será obtido apenas com o avanço da produtividade, já que a área plantada ficou um pouco mais baixa: os cálculos são de que estão sendo utilizados 47,65 milhões de hectares neste período de 2009/10, enquanto na safra 2008/09 foram 47,67 milhões de hectares.

Como para todo lado bom há um lado nem tão bom assim, uma safra “mais cheia”, como se diz no jargão do setor, tende a conter ou, até mesmo, a derrubar os preços em dólares, especialmente quando já se sabe que os Estados Unidos e a Argentina, dois outros gigantes do agronegócio, também contarão com forte crescimento da produção.

Essa pressão baixista pode ser determinada não apenas pelo expressivo aumento da oferta, mas, também, pela recessão global, que segura o consumo. Em todo o caso, não se pode pretender que esses fatores dominem todo este ano porque, afinal, ninguém poderá deixar de se alimentar e, mais cedo ou mais tarde, o consumo terá de reagir.

O analista de agronegócio da consultoria Lafis, Ricardo Jacomassi, por exemplo, aposta em que os valores pagos ao produtor deverão melhorar no segundo semestre deste ano. Ele projeta alta de 12,7% nos preços da soja comercializados em Chicago e de 12,8% nas cotações do milho.

Geraldo Barros, coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, acredita que uma queda expressiva nas cotações das commodities alimentares só acontecerá se a economia mundial der o segundo mergulho na crise. Para ele, apesar das incertezas determinadas pela evolução da economia mundial, os preços devem manter-se acima das médias históricas.

No Brasil, o comportamento dos preços agrícolas está longe de ser um fator apenas técnico, especialmente em ano eleitoral, mais sujeito a pressões políticas. Todo ano agrícola ruim cria problemas para os projetos políticos de quem está no governo.

O agronegócio brasileiro já desembarcou desarrumado em 2010 porque a renda do setor caiu cerca de 6% em relação à obtida no ano anterior, conforme apontam os números da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). As exportações também diminuíram. Com dados disponíveis até setembro, o Cepea calculou que o agronegócio exportou US$ 47 bilhões, cerca de 10% a menos em relação ao mesmo período de 2008.

E não precisaria ser mencionado o nunca devidamente equacionado problema da precariedade logística do País. “Agora mesmo os produtores de milho enfrentarão queda de preços em consequência da falta de armazéns. Para não perder o produto, terão de comercializá-lo por qualquer valor”, avisa Barros. 

(Colaborou Isadora Peron)

Confira

Resposta chinesa – Um dia depois que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, advertiu a China de que precisa valorizar sua moeda para desaquecer a economia, o governo de Pequim foi buscar o desaquecimento de outro jeito.

Pela segunda vez em 30 dias, o Banco do Povo da China (banco central) impôs aos bancos chineses um aumento do recolhimento compulsório.

É uma decisão que obriga os bancos a trabalhar com menos caixa e mais reservas. O principal efeito será uma certa redução do crédito. Mas não dá ainda para saber se isso será suficiente para conter o consumo.

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