É a desindustrialização

Celso Ming

30 de agosto de 2010 | 20h34

Na sua rápida intervenção feita no 7.º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em realização na segunda-feira e amanhã, em São Paulo, o presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, advertiu para o risco de forte desindustrialização no Brasil.

Esse é um tema que os dirigentes da Fiesp vêm abordando frequentemente em tom de denúncia, algumas vezes porque estão de fato convencidos de que a indústria esteja sendo sucateada no País e, outras vezes, apenas porque querem mais atenção e mais estímulos do governo.

A principal evidência estatística para o fenômeno, tal como apontada pelos empresários, é a queda da participação da indústria na renda nacional (PIB). O professor José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília, está convencido de que está em curso um processo de desindustrialização. E apresenta o gráfico que mostra a redução do peso da indústria (veja o Confira).

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MANTEGA – ‘Não há isso’ (Foto: Celso Junior/AE – 27/7/2010)

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi taxativo: “Não há desindustrialização no Brasil.” É um desmentido corroborado por estatísticas de forte aumento do consumo. Mas não é só isso. As curvas de produção da indústria são impressionantes nos setores de veículos, máquinas e equipamentos, materiais de construção, aparelhos domésticos, alimentos e por aí vão. Mais do que isso, o emprego está crescendo consistentemente, inclusive na indústria, e os investimentos estão aumentando, o que não parece compatível com essa reclamação renitente dos empresários.

Por motivos diferentes, a queixa de desindustrialização é frequente nos países de alta renda, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Os americanos, por exemplo, denunciam a enorme competição desleal que lhes é feita pelos importados chineses. E os europeus, mais focados na concorrência da mão de obra mais barata dos antigos países que formavam a antiga União Soviética, amargam a migração de setores industriais inteiros para a Europa do Leste. Um pouco das lamúrias dos empresários nacionais sobre esse tema deve ser visto como reflexo das queixas manifestadas pelos empresários do Hemisfério Norte.

E, no entanto, a perda de participação da indústria no PIB na maior parte dos países industrializados (inclusive no Brasil) tem a ver com o crescimento da área de serviços na economia moderna. Há 150 anos, o fenômeno que mais impressionava os líderes dos setores produtivos na Velha Europa era a significativa perda de importância da agricultura diante do avanço da Revolução Industrial e dos transportes movidos pelas máquinas a vapor.

Mas a questão de fundo consiste em saber o que se pretende com o desenvolvimento: se é a recuperação da participação da importância da indústria na economia ou se é o bem-estar da população. Há alguns anos, a indústria tinha o dobro do peso no PIB brasileiro e, no entanto, o povo não tinha poder aquisitivo para consumir as mercadorias que saiam de suas linhas de produção.

A indústria perdeu importância relativa e, no entanto, já há no Brasil um certo mercado de massas. É um mercado que, além de apresentar uma forte perspectiva de desenvolvimento, não está sujeito ao desaparecimento súbito numa crise qualquer. E essa é a melhor garantia de que o futuro da indústria no País não é o sucateamento, mas o crescimento e a mudança de qualidade, desde que devidamente capitalizada e atualizada tecnologicamente.

Confira

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Valorização do real. O professor José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília, identifica no gráfico acima “sinal claro de desindustrialização” no Brasil. Ele o associa ao aumento da participação das matérias-primas nas exportações e à valorização do real (queda do dólar), que, por sua vez, tira competitividade da indústria.

Doença holandesa. O professor Luis Carlos Bresser-Pereira chama esse efeito de “doença holandesa”. É o aumento de preços das commodities exportadas que traz dólares e que derruba o câmbio.

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