E agora BC?

E agora BC?

Celso Ming

13 de abril de 2013 | 16h30

Até agora o Banco Central não saiu da moita. Em todas as suas manifestações, apenas deixou claro que estava especialmente preocupado com a mudança de patamar de inflação, com seu grau de espalhamento (índice de difusão) e com sua resistência. Mas o que fará para enfrentar o novo quadro ainda não ficou claro. O que ficou entendido é que manteria sua posição de vigilância e cautela até maio, para, só então, de posse de novos dados, elevar os juros básicos (Selic) – se fosse o caso.

Essa atitude pareceu coerente com a disposição da presidente Dilma Rousseff de não puxar pelos juros, a não ser em último caso, para não prejudicar a recuperação da atividade econômica (avanço do PIB) – objetivo que ela mais valoriza.


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Tombini. Hora de agir (FOTO: ED FERREIRA/ ESTADÃO)

Como esta Coluna apontou em outra oportunidade, os novos números da inflação carregam certa dimensão política. Há hoje a percepção de que a alta dos preços passou dos limites – algo que transpareceu não só da perfuração do teto da meta anual (4,5% mais 2 pontos porcentuais de área escape), mas também da reação da opinião pública. O tombo nas vendas do mercado varejista, de 0,4% em fevereiro, também sugere que a corrosão do poder aquisitivo pela inflação vai gerando impacto relevante na atividade econômica. É provável, ainda, que a necessidade de usar uma participação maior do orçamento doméstico nas despesas com bens e serviços de primeira necessidade esteja não somente derrubando a capacidade de endividamento das famílias, mas também incentivando a inadimplência (calote das dívidas).

Ainda subsiste dentro do governo e fora dele a opinião de que a mídia está turbinando a inflação. Não há risco de descontrole, diz essa gente; é deixar que a trajetória natural das coisas esvazie a inflação. É um ponto de vista que não leva em conta nem as novas incertezas provocadas pela alta dos preços nem a atividade remarcatória dos agentes econômicos (fator inércia), que passarão a prevalecer se não vier o contra-ataque.

Um dos traços do governo Dilma é a complementação de políticas. A política monetária não é um instrumento independente de outros. Muito provavelmente, a atitude de esperar para ver a decisão tomada pelo Banco Central, conduzido pelo presidente Alexandre Tombini, está relacionada à espera de definições dentro do governo sobre o manejo de outras alavancas, como a política fiscal (receitas e despesas do governo) e a velocidade com que serão tocados os investimentos em infraestrutura.

Novas altas dos juros, por exemplo, poderiam ser dispensadas caso o governo se dispusesse a ser mais austero na condução de sua política fiscal e se deixasse valorizar mais o real (baixa do dólar) – hipótese improvável.

Isso leva a crer que a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), agendada para esta terça e quarta-feira, tem tudo para ser decisiva para redefinir o comportamento da economia nos próximos dois anos.

O Banco Central necessita de recuperar um mínimo de credibilidade que seja para reassumir a condição de gerenciar as expectativas do mercado. O melhor que se pode fazer é dar um tranco na economia por meio de uma alta significativa dos juros básicos. E o que tem de ser feito é melhor que venha o quanto antes.

CONFIRA

Esta é a evolução dos juros básicos (Selic) desde setembro de 2008.

A fatia dos serviços. Se, como pensa o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, a evolução do PIB em 2012 foi maior do que o 0,9% apontado porque o tamanho do setor de serviços é maior do que os 68,5% que lhe são atribuídos, segue-se que: (1) a participação da indústria de transformação no PIB é ainda mais baixa do que os 13,3% calculados pelas Contas Nacionais; e, (2) se o governo quer mais crescimento, ganharia mais se acionasse os serviços, e não a indústria.