E agora, Petrobrás?

Celso Ming

24 de setembro de 2010 | 18h49

Como o futebol, a política (e a história) é uma caixinha de surpresas.

Há alguns anos, o então presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, apresentava-se como combatente contra o neocapitalismo e suas manifestações. A Bovespa, então, não passava para ele de cassino, reduto de especuladores movidos a ganância e suor de gente pobre.

Mas, hoje, o presidente Lula festejava no pregão da Bolsa a maior operação de capitalização de uma empresa em todos os tempos. Terça-feira, em cerimônia de inauguração de um trecho da Ferrovia Norte-Sul, Lula já reconhecia de peito estufado: “Eu, que passei minha vida política dizendo que era socialista, vou fazer a maior capitalização que o mundo capitalista já fez.”

Embora o governo não tenha conseguido vender todas as ações pretendidas e apesar das já analisadas barbeiragens de percurso, a operação foi bem-sucedida. E esse sucesso foi possível graças a um punhado de fatores favoráveis. Aqui vão alguns: os mercados estão inundados de liquidez; não há, no momento, grandes opções relativamente confiáveis para aplicação de dólares; apesar das questões levantadas pelos ambientalistas, petróleo hoje é fator escasso e deverá ser ainda mais raro dentro de alguns anos; e enquanto as economias do mundo rico estão se esfacelando, as dos emergentes exibem surpreendente solidez; os fundos de investimento da Ásia estão ávidos à procura de oportunidades na área de commodities…

Mas não dá para ignorar os riscos. A Petrobrás não conseguirá manter o atual ritmo de remuneração do capital porque os investimentos a serem cobertos com os recursos dessa capitalização levarão cerca de cinco anos para maturar. Além disso, precisará de mais capital para garantir seu programa de investimentos. O atual reforço foi de US$ 70 bilhões e, apenas para os próximos cinco anos, a Petrobrás precisará de US$ 224 bilhões.

Mais importante ainda, agora que se tornou a segunda maior do setor no mundo, a Petrobrás está ameaçada de gigantismo. É preciso ver até que ponto será possível garantir eficiência a uma empresa tão grande administrada pelo governo, onde há cabide de emprego e os políticos estão sempre metendo o bedelho.

O tempo dirá que efeitos essa megaoferta de ações produzirá. Em termos imediatos, dá para dizer que o Brasil está sendo mais uma vez foco das atenções no mundo das finanças. Nessas condições, atrairá ainda mais recursos. Outras empresas, nacionais e estrangeiras, acionarão operações de oferta de ações para o resto do mundo a partir do Brasil. A espanhola Repsol, petroleira global que detém um pedaço de pré-sal a explorar, já avisou que logo acionará o mercado brasileiro.

O fortalecimento do mercado de capitais do País poderá exigir um fluxo ainda mais aberto de ativos financeiros do exterior e para o exterior, sabe-se lá com que impacto sobre o câmbio. E isso, por sua vez, poderá apressar o processo de redução dos juros no Brasil, porque será preciso diminuir as oportunidades de especulação com juros (arbitragem).

A União precisa desesperadamente de recursos para fortalecer suas empresas estatais. O sucesso dessa oferta de ações parece ter criado nova percepção. A de que a capitalização das empresas estatais pode ser feita por meio de democratização do capital social sem risco de que essa operação seja depois considerada privataria. E isso pode ter consequência.

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