É Berlim, de não em não

Celso Ming

19 de novembro de 2011 | 16h30

As resistências da Alemanha são fortes, mas a falta absoluta de outra opção para salvar o euro acabará levando o Banco Central Europeu (BCE) a cumprir a até agora rejeitada função de emprestador de última instância.

Se o naufrágio se restringisse à Grécia e a Portugal, cada um com dívidas inferiores a 370 bilhões de euros, ainda dava para recorrer às transferências de recursos intrabloco. Mas agora a nau da vez é a Itália, que tem um passivo de 1,9 trilhão de euros e, aparentemente, Espanha (700 bilhões) e França (1,7 trilhão) já dão sinais de carregarem avarias em seus cascos.

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Merkel. Irredutível… Até quando? (FOTO: KAI PFAFFENBACH/REUTERS)

A área do euro necessita de uma fonte de recursos em princípio ilimitados que impeça a catástrofe. E só há uma instituição capaz disso: o BCE.

A primeira proposta foi permitir que o superguincho europeu criado para socorrer as economias do bloco, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF), emitisse títulos no mercado chamados eurobonds e, com o resultado da operação, financiasse os Estados. A Alemanha disse não, porque implicaria a federalização do endividamento.

A segunda ideia, aprovada ao final de outubro, foi submeter o EFSF a uma engenharia financeira capaz de turbinar os cerca de 440 bilhões de euros de seu patrimônio para um alcance de 1,3 trilhão de euros. Na prática, o EFSF ofereceria uma espécie de seguro parcial de crédito. Mas os recursos teriam de vir do mercado. Desse modo, esse esquema, complexo demais e não isento de riscos, parece mesmo fadado ao fracasso.

O terceiro caminho seria transformar o EFSF em banco. Como o BCE pode emprestar recursos para bancos, suprido com volumes ilimitados, o EFSF se encarregaria de salvar países em perigo. Mas a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, disse outra vez não, argumentando tratar-se de empréstimos disfarçados a Estados nacionais do euro, prática explicitamente proibida ao BCE.

A quarta possibilidade seria acionar um dos dispositivos dos tratados – o que permitiria que o BCE fizesse empréstimos a instituições financeiras oficiais globais. O repasse seria feito ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que, por sua vez, usaria suas linhas de assistência em troca das exigências de praxe. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, vem defendendo a manobra já há algumas semanas. E tem recebido negativas liminares de Berlim.

Mas sabe-se lá até quando a Alemanha será capaz de resistir. Em jogo não está somente a salvação de dois ou três países mediterrâneos habitados por gente que adora gastar, e, sim, o futuro do euro.

Na última quinta-feira, a Espanha teve sérias dificuldades para rolar 3,6 bilhões de euros de sua dívida. Foi então que o BCE comprou pesadamente seus títulos no mercado secundário para tentar baixar os juros também na oferta primária, na qual está proibido de intervir – porque caracterizaria financiamento direto a um déficit público.

Há alguns meses o BCE está comprando títulos soberanos da área do euro no mercado, embora com parcimônia. Mas isso parece meia virgindade. Os dois mercados, o primário e o secundário, são vasos comunicantes. Mais cedo ou mais tarde, o BCE terá de admitir que essas compras não deixam de ser empréstimo de última instância.

CONFIRA

Pouco a comemorar. O ministro Guido Mantega, que soltou foguetório quando a Fitch promoveu pela primeira vez a dívida do Brasil a grau de investimento, preferiu agora uma comemoração discreta quando a Standard & Poor’s anunciou determinação semelhante. As principais razões para isso talvez não estejam nas críticas endossadas pelo governo brasileiro a dois supostos erros da Standard & Poor’s, mas no fato de que o reconhecimento da melhora das condições da dívida brasileira trará ainda mais capitais e, portanto, concorrerá para nova rodada de valorização do real ante o dólar.

Para baixo. O Ministério do Planejamento revisou para baixo o avanço do PIB do Brasil em 2011. Em vez dos 4,5% com que contava, passou a trabalhar com 3,8%. Mas, como frequentemente acontece com a pasta, também esse novo cálculo pode ter sido irrealista. O crescimento deste ano está mais para perto dos 3,0% do que dos 3,5%. E, nas próximas semanas, mais instituições se encarregarão de revisar para baixo esse número.