E depois?

E depois?

Por enquanto, a agenda econômica do governo se concentra no ajuste; Falta saber o que virá em seguida

Celso Ming

18 de abril de 2015 | 16h00

No filme, o destino de Ida se define quando fica claro que não há depois. No caso da economia brasileira, não há definição para o que acontecerá depois do ajuste fiscal.

Se tudo der certo, promete a presidente Dilma, voltaremos a crescer e tudo se resolverá. Infelizmente, não é bem assim. O ajuste só tirará algum entulho e alguma tranqueira. O resto fica por fazer.
O investimento, por exemplo, está perto da calamidade. Não passa de 19,7% do PIB. Investimento é semente. Se o produtor come as sementes, não há o que semear e não haverá safra. Para crescer 3% ao ano, o investimento terá de ser de 22% do PIB.

Este é um país de baixo nível de poupança. Não se preocupa com reservar sementes para garantir o futuro. O brasileiro consome quase tudo do que ganha. Poupa apenas 15,8% de sua renda. É uma insignificância se comparada com os padrões asiáticos (33% do PIB) e mais ainda quando comparada com a China (51% do PIB). Por aí se vê, também, que pobre também pode poupar mais. Não está condenado a viver da mão pra boca, como tanta gente diz.

Nesta terra que adora o investimento estatal, o setor público (governo federal, Estados e municípios) também não colabora, como acontece na China. Investe menos do que 1% do PIB.

Os últimos acontecimentos trouxeram enorme complicador. As grandes empreiteiras e concessionárias que poderiam encarregar-se de colocar em marcha obras destinadas à ampliação dos serviços públicos (hidrelétricas, estradas, pontes, ferrovias, portos, aeroportos, etc.) estão enredadas nas denúncias da Operação Lava Jato. Enquanto não limparem esse passivo, em princípio, estão incapacitadas de participar dos leilões para novas concorrências e novas licitações. Não há desenrosco à vista. Sem grandes avanços na infraestrutura e sem equacionamento da oferta de energia, o investimento fica comprometido.

A economia está sem estratégia. No momento, o governo limita-se a apagar incêndios. Depois disso, qual a direção? Qual a política destinada a devolver competitividade à indústria? Como garantir acordos comerciais que deem tratamento prioritário ao produto brasileiro se o governo Dilma não tem propostas para isso?

Este é, também, um país sujeito a apagões não apenas na área da energia elétrica. Não só o plano de negócios da Petrobrás tem de ser redimensionado. O marco regulatório do petróleo tem de ser revisto para caber na capacidade operacional e financeira da Petrobrás e para garantir as receitas esperadas com os royalties. A sociedade brasileira tem de definir o que quer e a que ritmo explorar as reservas de petróleo e gás, como ficou dito aqui na coluna de quinta-feira.

O que fazer para qualificar a mão de obra e aumentar a tão baixa produtividade do Trabalho? Uma longa pauta de reformas está emperrada, à espera de decisões que as coloquem em marcha: reforma política, tributária, previdenciária, das leis trabalhistas, providências que agilizem o Judiciário.

Um bom começo para pensar o futuro é partir do princípio de que não podemos mais contar com os tempos de bonança, de minério de ferro a quase US$ 200 por tonelada, soja a US$ 17 por bushel, petróleo a US$ 120 por barril, além de uma fonte externa inesgotável de dólares. O crescimento econômico terá de ser pavimentado com mais suor e mais poupança nacional.

CONFIRA:

Petro17abr2015

No gráfico, a evolução das cotações preferenciais da Petrobrás. Quarta-feira deve sair o balanço auditado.

Conselho Fiscal
Os membros do Conselho Fiscal da Petrobrás terão acesso privilegiado ao balanço auditado com 48 horas de antecedência. São eles: Reginaldo Ferreira Alexandre (suplente Mário Cordeiro Filho); Paulo José dos Reis Souza (suplente Marcus Pereira Aucélio); César Rech (suplente Edison Freitas de Oliveira); Marisete Fátima Dadald Pereira (suplente Ricardo de Paula Monteiro) e Walter Luiz Bernardes Albertoni (suplente Roberto Lamb).