É devagar, devagarinho

É devagar, devagarinho

O avanço do PIB dos EUA, de apenas 0,2% ao ano no 1.º trimestre, reforça a percepção de que a secura de dólares que vinha sendo preparada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central) vai ser mais uma vez adiada

Celso Ming

29 Abril 2015 | 21h00

O avanço do PIB dos Estados Unidos, de apenas 0,2% ao ano no 1.º trimestre (veja o gráfico), reforça a percepção de que a secura de dólares que vinha sendo preparada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central) vai ser mais uma vez adiada, provavelmente, para 2016.

Primeiramente, as preliminares. Desde 2008, quando a crise foi deflagrada, o Fed injetou um oceano de dólares no mercado (mais de US$ 4,45 trilhões) com o objetivo de reverter o estancamento do crédito e de recolocar em marcha a economia. Foi o mecanismo conhecido como quantitative easing, atuação não convencional de um banco central.

EUAPib1tri2015

O despejo de dólares acabou em outubro do ano passado e agora tem de vir a reversão. Em vez de comprar títulos, o Fed deve começar a vender os que estocou em carteira. No entanto, o início dessa operação vai sendo posposto indefinidamente, seja porque a inflação não dá sinais de retorno, seja porque a recuperação da economia americana venha se mostrando tímida demais, como ainda ontem o Fed sugeriu. E há os efeitos do dólar forte. Bastou que crescesse a expectativa do enxugamento monetário para que o dólar se fortalecesse diante das demais moedas e prejudicasse as exportações dos Estados Unidos. O PIB fraco do primeiro trimestre também pode ter a ver com isso.

O adiamento deixa o mercado externo com ampla oferta de dólares à procura de aplicações atraentes. E isso tende a empurrar recursos externos para dentro do Brasil. Inversões de longo prazo são mais desejáveis, porque a economia está necessitada de capitais. Mas, nesta crise, até recursos de curto prazo, que poderiam deixar o País mais vulnerável à fuga de capitais, são bem-vindos.

Quem apostava em que o Brasil seria varrido por uma tempestade perfeita, temia que o início da operação pelo Fed atiraria para o alto as cotações do dólar em reais, o que ajudaria a puxar a inflação. Mas as coisas estão se comportando de maneira diferente.

Alguns fatores internos vêm contribuindo para certo alívio. Mal ou bem, o ajuste fiscal está acontecendo – ou, pelo menos, não vem tendo forte oposição interna; saiu, finalmente, o balanço auditado da Petrobrás; a ameaça de que os títulos de dívida do Brasil fossem classificados como de forte risco foi afastada por enquanto; há sinais de que o rombo crescente das contas externas está sob controle; e aumentam as apostas em que, passado o efeito dos tarifaços, a inflação, hoje acima de 8% ao ano, voltará a refluir.

Do ponto de vista do PIB, 2015 está perdido. O País enfrentará uma retração que há muito não se via, mas há correções em curso. Não dá para dizer ainda que a arrumação da economia esteja garantida, porque o investimento está baixo, o programa de concessões segue devagar, as contas não fecham na Petrobrás e não há reação da indústria. Mas o nível de confiança parece, afinal, ter atingido o fundo do poço.

A tempestade perfeita não veio e pode não vir, se a economia engrenar. O risco é o de que o governo Dilma faça leitura equivocada dessa trégua relativa, passe a acreditar em que o Brasil tenha corpo fechado, como no discurso da marolinha, e volte para as lambanças recentes.

CONFIRA:

DESONERA TABELA

A tabela mostra o salto dos recursos tributários que o governo deixou de arrecadar pela política de incentivos.

‘É preciso mudar’
Os números foram expostos nesta quarta-feira na Câmara pelo ministro Joaquim Levy para justificar a necessidade do ajuste fiscal. “A desoneração da folha de pagamentos praticamente não gerou empregos e custa duas vezes o total gasto por ano com o programa Minha Casa, Minha Vida.” Temos de mudar isso ou não conseguiremos alcançar o equilíbrio necessário, disse Levy.