É o fim da simbiose?

Celso Ming

23 de junho de 2012 | 16h30

Nos últimos três meses aumentaram as indicações de forte desaceleração da atividade econômica da China, hoje a segunda maior economia do mundo. Há boas razões para entender que esse movimento não reflete apenas o ajuste da economia chinesa à crise global. Pode ser mais do que isso; pode ser o início do rompimento da relação simbiótica mantida entre China e Estados Unidos nos últimos 20 anos.

A simbiose consistiu numa troca recíproca de papéis que configurou uma dependência recíproca. Os Estados Unidos passaram a ser grande mercado consumidor de produtos industrializados chineses e a China, por sua vez, amontoou grandes sobras em receitas (superávits comerciais) que foram imediatamente transformadas em reservas externas e, em seguida, trocadas por títulos do Tesouro dos Estados Unidos . Ou seja, nessa simbiose, a China atuou como financiadora dos rombos orçamentários (e do consumo) dos Estados Unidos.

ChinaPIB.jpg

 

Esta não foi apenas uma valsa dançada por um único casal. Outros protagonistas atuaram direta ou indiretamente neste salão. Outros emergentes, como Brasil, Rússia e Índia, também formaram grande volume de reservas depois aplicadas em títulos dos Estados Unidos.

Uma das consequências desse mega- arranjo foi o forte achatamento dos juros internacionais de longo prazo, pela simples razão pela qual se formou vasto mercado tomador de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Juros rastejantes, por sua vez, concorreram decisivamente para a grande expansão do crédito, para a formação das bolhas imobiliárias e para o afundamento na crise.

Agora, a China não pode mais tirar proveito, como antes, do enorme dinamismo do mercado dos Estados Unidos e dos demais países ricos, que perderam capacidade de importar e de se endividar. Em contrapartida, estes países também não podem mais contar com a mesma capacidade que tinham os chineses (e demais emergentes) de seguir amontoando reservas.

Como não podem exportar como antes, os chineses já não conseguem crescer aos ritmos alucinantes de há alguns anos (veja o gráfico). Sua estratégia de política econômica não pode mais concentrar-se no crescimento econômico baseado na expansão do mercado externo (export led growth), mas terá de induzir o crescimento do consumo no mercado interno (domestic led growth).

O problema dessa mudança de modelo é que a China consome pouco. Não mais do que 49% da renda. (Apenas para comparar, o Brasil consome cerca de 73% e os Estados Unidos, quase 100%.) Achatar a poupança na China (de 51%) e transformá-la em consumo interno seria tarefa hercúlea que levaria anos, talvez dezenas.

Até agora, os analistas imaginavam que, uma vez superada a crise, tudo voltaria a ser como antes. Mas as evidências são de que esse retorno à valsa antiga já não seria mais possível. Se não por outras razões, pelo menos por duas: porque a economia dos Estados Unidos já esbarrou no teto de sua capacidade de endividamento (emissão de títulos do Tesouro); e porque parece muito próximo o limite de formação de reservas pela China.

 

CONFIRA

ChinaReservasN.jpg

Aí está a evolução das reservas da China, formadas principalmente com saldo positivo do seu comércio exterior, Também concorreu para isso a forte entrada de investimentos estrangeiros.

Novo imposto. Sexta-feira, 12 dos 27 países da União Europeia representados pelos seus ministros de Finanças reunidos no Ecofin aceitaram iniciar os procedimentos para instituir um imposto sobre transações financeiras. As recusas de Luxemburgo (paraíso fiscal) e da Grã Bretanha (sede da City, o maior centro financeiro da Europa) dificultam a criação desse imposto porque este tende a transferir recursos para países onde essa taxa não estiver vigorando.