É o fundo do poço. Ou não.

É o fundo do poço. Ou não.

O governo Dilma notabilizou-se por prometer o que os antigos chamavam de “mundos e fundos” e entregar resultados de medíocres para ruins. Em 2014, os fracassos prevaleceram

Celso Ming

26 de dezembro de 2014 | 21h00

Se a presidente Dilma começa seu novo mandato com a economia no fundo do poço, então é de esperar que, nos quatro anos seguintes, conseguirá melhorá-la.

De cara, já se pode perguntar se chegamos de fato ao fundo do poço. Talvez não, uma vez que nada é tão ruim que não possa piorar. No entanto, o ajuste está sendo prometido com insistência quando a situação econômica está fortemente deteriorada.

O governo Dilma notabilizou-se por prometer o que os antigos chamavam de “mundos e fundos” e entregar resultados de medíocres para ruins. Em 2014, os fracassos prevaleceram.

CONFIANCA26DEZ

O avanço do PIB ficará muito perto de zero. A perspectiva para 2015 não é muito melhor porque, se tudo der certo, será um ano de distribuição de contas. A indústria está no chão, com capacidade de competição cada vez menor. O nível de poupança do País é o mais baixo para o 3.º trimestre em 14 anos e o do investimento, o mais baixo desde 2006. Pior do que isso, todos os levantamentos apontam para um nível de confiança em fase minguante, o que congela os investimentos (veja o gráfico).

As contas públicas deverão fechar o ano com um superávit primário mais baixo do que o prometido. Ou talvez não apontem nem isso; apontem um rombo. Esse é o principal fator que ameaça com o rebaixamento da qualidade dos títulos da dívida pública, o que significaria aumento dos juros da dívida.

As contas externas estão em franca deterioração. As transações correntes (entrada e saída de moeda estrangeira para pagamentos de mercadorias, serviços e transferências unilaterais – menos fluxo de capitais) caminham para um rombo de US$ 85 bilhões, ou 4% do PIB. Não pode mais ser coberto só com entrada de investimentos. Depende cada vez mais de recursos de curto prazo, que podem abandonar o País a qualquer momento. Chegou ao fim o ciclo de alta das matérias-primas e suas exportações enfrentarão quebra de faturamento. Enquanto isso, os produtos manufaturados não conseguem mercado externo.

A inflação não saltará para acima do teto da meta por um triz. E, como o Banco Central vem repetindo, o realinhamento dos preços (reajustes dos preços administrados e do câmbio) tende a puxar a inflação em direção aos 7% ao ano.

A questão energética continua sem equação. Apesar dos financiamentos e da recomposição parcial dos preços, falta repassar ao consumidor uma alentada conta a pagar. Afora isso, as incertezas quanto ao suprimento futuro de energia continuam adiando os investimentos.

A toda essa lista, poderiam ser acrescentados : os juros altos demais, o emperramento das reformas, a baixa produtividade da mão de obra e qualidade do ensino… e por aí vai. Quanto pior for o quadro e quanto maior for a disposição de promover o ajuste, mais fácil será obter resultados. E quando esses aparecem, a confiança tende a aumentar.

Os manuais de Economia apontam como devem ser feitos os consertos dos estragos. O problema é que, nesses casos, a principal variável é política. E não há como saber até que ponto o governo da presidente Dilma poderá contar com apoio suficiente para impor a enorme distribuição de contas dessa crise.

CONFIRA:

PETRÓLEO2

Esta foi a evolução das cotações do petróleo desde o início de novembro. Queda acumulada de 30% tanto no tipo WTI negociado em Nova York quanto no tipo Brent negociado em Londres.

De olho no inverno
Os solavancos de preços seguem fortes. É sinal de que o mercado está longe de se estabilizar. Há semanas, especialistas apostaram em que o inverno mais rigoroso no Hemisfério Norte poderia aumentar o consumo de derivados destinados ao aquecimento e, portanto, provocar recuperação de preços. Até agora não há sinais disso.

 

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