Economia e voto

Economia e voto

A presidente Dilma deixou-se arrastar pela cultura de que um chefe não pode admitir que falhou e de que toda crítica tem de ser repelida com veemência, na base do bateu, levou.

Celso Ming

10 de outubro de 2014 | 21h00

A Coluna de quinta-feira argumentou que a política econômica do governo Dilma falhou em relação às metas que ela mesma se propôs a entregar. Nesta sexta, avalia certas consequências eleitorais dessa falha.

Não vamos contar aqui os votos de protesto nem o porcentual dos não válidos. O fato é que os dois candidatos da oposição tiveram, somados, 54,8% dos votos e esse é o primeiro indício de que o eleitor está sentindo na pele e no bolso o estrago que vem sendo causado tanto pela inflação quanto pelas novas demandas estimuladas ao longo dos 12 últimos anos, mas não inteiramente cumpridas.

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Há um clamor por mudanças, recado que não foi passado só agora, mas vem lá de trás, das manifestações de junho de 2013, que foram interpretadas, pelo próprio governo, como recado de grande relevância. A presidente Dilma prefere atribuir essa pressão por mudanças ao gostinho que as novas classes médias experimentaram por maior e melhor qualidade de consumo, que nem sempre pode ser satisfeito – e não às consequências das escolhas equivocadas de política econômica. Com isso, tenta realçar como mérito seu ter atuado para a redenção das camadas mais pobres da população, e não reconhecer desvios na condução da política econômica.

Um elemento que pode ter levado a presidente Dilma a esse autoengano é o resultado das pesquisas que vêm apontando para a existência de uma fatia de 39% de brasileiros para os quais o governo é considerado bom e ótimo. É um índice relativamente alto que, no entanto, esconde o principal, que é a notória corrosão dos fundamentos da economia, cujo desfecho a mais longo prazo é a deterioração da qualidade de vida.

Nesse ponto, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, é mais sincero. Mais de uma vez, chegou a reconhecer que parte desse movimento por mudanças se deveu à erosão do poder aquisitivo provocada pela inflação, cuja origem ele atribuiu depois aos estragos decorrentes das condições climáticas.

Mas a presidente deixou-se arrastar pela cultura de que um chefe não pode admitir que falhou e de que toda crítica tem de ser repelida com veemência, na base do bateu, levou. Repetiu indefinidamente que tudo vai bem com a economia, que as insatisfações partem daqueles que deixaram de tirar proveito das regalias e dos pessimistas de sempre.

O fato é que se acumula uma conta alentada a ser transferida para a população. É o atraso dos reajustes dos preços administrados, principalmente dos combustíveis, da energia elétrica e dos transportes urbanos, mais o represamento do câmbio que comerão mais poder aquisitivo da população. É a deterioração das contas públicas, cujo saneamento vai exigir a redução da distribuição de benefícios ou o aumento de impostos ou ambos. E é o esvaziamento crônico da indústria que, mais cedo do que tarde, enveredará para mais fechamento de postos de trabalho. (Veja o Confira)

O eleitor sente imediatamente quando sua vida e seu bolso sofrem de anemia e, ainda que apenas instintivamente, aproveita o voto para dar seus avisos. Como, no entanto, o governo ouve apenas o que quer, é difícil de saber até que ponto esses avisos chegaram a seu destino.

CONFIRA:

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O gráfico mostra a variação mensal do emprego na indústria nos últimos 24 meses. Calculado pelo IBGE, o índice apresentou recuo de 0,4% em agosto comparativamente a julho, na série livre de influências sazonais. Foi a quinta queda mensal seguida.

A bomba Ebola
Pergunta à toa: o que aconteceria se, em vez de explosivos e de aviões, um grupo de terroristas resolvesse disseminar o vírus Ebola em concentrações urbanas do Ocidente? Não haveria aparelhos de detecção nos portos, aeroportos, estações de metrô e estádios de futebol…

 

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