Efeito estiagem

Efeito estiagem

A queda de 1,9% do PIB agropecuário no terceiro trimestre ante o trimestre anterior, divulgada na sexta pelo IBGE, foi puxada pela quebra de 5,9% na safra de cana-de-açúcar por causa da falta de chuvas

Celso Ming

29 de novembro de 2014 | 16h00

Agricultor é chorão inveterado. Faz parte de seu DNA reclamar das coisas. Mas, desta vez, pelo menos na região Centro-Sul, ele tem do que se queixar. A estiagem está pegando forte: quebrou safras e atrasou plantios. A queda de 1,9% do PIB agropecuário no terceiro trimestre ante o trimestre anterior, divulgada na sexta pelo IBGE, foi puxada pela quebra de 5,9% na safra de cana-de-açúcar por causa da falta de chuvas.

Apesar do regime hidrológico adverso e das incertezas que provêm da mudança de governo e da derrubada dos preços das commodities, os dois principais levantamentos da produção de grãos do País, feitos pela Conab e pelo IBGE, apontam para boas notícias. No período 2014/2015 as safras de grãos só não continuarão registrando recordes em segmentos específicos. O café está nesta lista, mas o setor vem sendo compensado pelo aumento de preços. A saca de 60 kg agora ronda os R$ 460. No mesmo período do ano passado, estava em torno dos R$ 260.

Os primeiros subsetores a acusarem situações de crise na agricultura são quase sempre os dos fornecedores. E, no entanto, estes não se mostram preocupados. Não há sinais de retração da procura de fertilizantes. Os produtores contam com vendas recordes. No caso dos defensivos, haverá sim alguma quebra no crescimento esperado há alguns meses, porque o plantio das culturas de primavera atrasou as encomendas. Na área de máquinas agrícolas (tratores, semeadeiras, colheitadeiras, etc.) já era estimada alguma redução das vendas, mas isso pouco tem a ver com a estiagem. É apenas a pausa natural que se segue a grande aumento da procura ao longo de 2013.

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Ainda assim, não dá para passar em branco pelas culturas mais atingidas. “Na atual geração de agricultores nunca houve uma anomalia climática dessa intensidade no Estado de São Paulo. Não se trata só de escassez de chuva, mas de radiação solar intensa e temperaturas muito elevadas, principalmente no início do ano”, afirma o engenheiro agrônomo e pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA) Celso Vegro. A qualidade também foi comprometida: laranjas mirradas, grãos prematuros de café e canas menos desenvolvidas.

No caso do café, lavouras inteiras chegaram a entrar em estado de murcha permanente, no qual a planta não consegue mais reverter seu déficit hídrico e exige replantio. Também foram prejudicados os cultivos de cana-de-açúcar e laranja, nos quais São Paulo representa, respectivamente, 56% e 74% da produção nacional. Pela estimativa da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana), a previsão de 83 toneladas por hectare em São Paulo deve ser frustrada em 15% este ano. Já a quebra da safra da laranja cultivada em São Paulo e no Triângulo Mineiro (80% da produção do País) deve ficar em 20%, calcula o presidente da Câmara Brasileira de Citricultura do Ministério da Agricultura, Marco Antônio dos Santos.

Aos poucos as chuvas voltam, espaçadas e incertas. Ainda é cedo para contabilizar os prejuízos. O impacto, certamente, não ficará circunscrito à agricultura. O comércio do interior, por exemplo, deverá acusar as consequências./COLABOROU LAURA MAIA

CONFIRA:

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Acima a evolução dos preços do barril de petróleo na última semana.

Engoliu, não engoliu
O presidente da Marfrig, Sérgio Rial, não concordou com a afirmação feita por esta Coluna na edição do dia 26, de que “o Frigorifico Marfrig foi engolido pela JBS”. Ele cita os números do balanço para atestar o bom desempenho da empresa. Nada a objetar em relação a esses números. Mas faltou ser reconhecido por Rial o fato de que a principal divisão da Marfrig, a Seara, foi, sim, engolida pela Friboi. Seria como se a Daimler perdesse a marca Mercedes-Benz para a Volkswagen.

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