Efeitos da estagnação

Efeitos da estagnação

A estagnação da economia vem acendendo sinais amarelos quase todos os dias

Celso Ming

19 de junho de 2014 | 20h00

A estagnação da economia vem acendendo sinais amarelos quase todos os dias.

Na semana passada, o Índice da Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que pretende antecipar a medição do PIB, apontou em abril sobre março um avanço de 0,12%, número que acusa um desempenho muito próximo do negativo também no segundo trimestre do ano. Quarta-feira, o IBGE mostrou, em abril, forte desaceleração dos serviços, justamente o setor mais dinâmico até aqui.

Não há radar que projete para este ano um avanço sobre 2013 superior a 1,5%. O levantamento semanal feito pelo Banco Central pela Pesquisa Focus, na qual são ouvidas cerca de 100 instituições, mostrou segunda-feira que o crescimento esperado do PIB para 2014 é de 1,24%.

É uma expectativa negativa que contamina toda a atividade econômica e tende, por si só, a puxar ainda mais para baixo o desempenho da economia.

Não é o mercado de trabalho que está sendo mais atingido, uma vez que segue excessivamente aquecido, em situação de quase pleno-emprego. Mas parece inevitável um desaquecimento também nesse campo. Com as vendas estagnadas e pouco alento pela frente, as empresas tendem a antecipar férias coletivas, a adiar as contratações de pessoal, a engavetar projetos de expansão e a reter encomendas com os fornecedores.

Este não é o único efeito macroeconômico perverso produzido por uma economia à beira da estagnação. O principal deles atinge a administração das finanças públicas, já que derruba a arrecadação de impostos e praticamente impossibilita a consecução das metas fiscais.

Afinal, o que dá para fazer para reverter esse quadro? Na verdade, pouco ou quase nada. Não há mais espaço para políticas anticíclicas, porque estas não se adotam quando o governo quer, mas só quando pode. O Tesouro é uma tigela raspada de onde não se pode tirar mais nada. O pacote de bondades amarrado à última hora pelo governo para animar os empresários demonstra o estado de penúria dos recursos públicos e o baixo alcance da artilharia do governo.

O ministro Guido Mantega vem repisando um diagnóstico equivocado, já retomado pelo ex-presidente Lula: de que a economia está parando porque o crédito ao consumo está em desaceleração.

É, mais uma vez, entender que o problema está na demanda. Trata-se de um olhar viciado que vem dos tempos do governo Lula. Por causa das suas origens na militância sindical, as autoridades da área econômica tendem a tomar encalhes das montadoras de veículos como indicação de que os bancos estão retendo o crédito, e não de que o poder aquisitivo do consumidor esteja sendo combalido pela inflação ou de que a capacidade de endividamento das famílias esteja ao menos temporariamente esgotada.

Bem que o governo Dilma vem tentando recuperar a confiança dos empresários. Mas o vem fazendo de modo inadequado. Melhores resultados seriam obtidos se se comprometesse com firmeza a atacar as distorções que estão à frente de todos. No entanto, parece crer que essa atitude implica reconhecer erros graves na condução da economia e isso ele quer evitar, ao menos em tempo de eleições.

CONFIRA:

Falha nossa

O leitor José Henrique Asprino adverte para o equívoco cometido por esta Coluna na edição de quarta-feira. Lá ficou dito que “dívidas precatórias são compromissos assumidos pelo poder público…”.

Precatório

A Coluna pretendeu referir-se a precatórios e não a dívidas precatórias. “Precatório”, lembra Asprino, “é uma dívida (não compromisso) do poder público, na maior parte das vezes com um particular, necessariamente oriunda de decisão judicial, versando acerca de pensões, proventos, desapropriações, honorários advocatícios e outros…”

Paris ou Pari

“Já precatória” ou o termo técnico “carta precatória” – prossegue Asprino – “é uma ordem emitida por um juiz de uma comarca para outro juiz de outra comarca. Uma letra muda tudo, são conceitos distintos, assim como passar férias em Paris ou no Pari.” Feita a necessária correção, a Coluna agradece ao atento Asprino pelo puxão de orelhas.

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