Eficácia duvidosa

Celso Ming

19 de outubro de 2010 | 19h17

A segunda rodada de providências destinadas a estancar a valorização do real (mergulho das cotações do dólar no câmbio interno) parece mais consistente do que a decidida há 16 dias. Mas tampouco será capaz de inverter a tendência à baixa do dólar.

Em algumas semanas, o Fed (banco central dos Estados Unidos) provavelmente estará colocando nos mercados mais um caminhão de dólares, a ser lançado por meio de operações denominadas afrouxamento quantitativo. Trata-se da recompra de títulos do Tesouro americano pelo Fed, com moeda emitida, supostamente para derrubar os juros de longo prazo e, assim, favorecer a retomada do crédito, do consumo, da produção e do emprego. O efeito colateral será mais uma enxurrada de dólares que tomará o rumo dos países emergentes, inclusive do Brasil.

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MANTEGA – Segurar o dólar (Foto: Nilton Fukuda/AE)

A primeira reação à decisão tomada segunda-feira pelo ministro Guido Mantega foi de alta do dólar tanto no mercado à vista como no a prazo. Mas, como das outras vezes, é improvável que tenha eficácia. O impacto inicial tende a perder força.

No câmbio à vista, a decisão foi aumentar de 4% para 6% o IOF na entrada de moeda estrangeira destinada a aplicações em renda fixa. Com isso, ficam desestimuladas as operações de arbitragem com juros (carry trade), onde o interessado toma por empréstimo recursos em moeda estrangeira para interná-los no Brasil e, assim, ganhar com os juros mais altos que ainda prevalecem aqui. Se paga um pedágio de 6%, enfrenta uma inflação de 4,5% a 6% ao ano e ainda tem de pagar os juros externos, as operações de até 180 dias ficam inviabilizadas. E podem ficar inviabilizadas as de prazo maior, dependendo de como evoluirão os juros aqui no Brasil.

É uma decisão que tem duas limitações. A primeira é a de que não impede as arbitragens feitas com o dólar que deveria sair e que agora deixará de sair, segmento que também contribui para a valorização do real. A segunda é a de que, se for mesmo do interesse do investidor, sempre haverá jeito de tirar proveito dos juros muito mais altos que prevalecem no País.

No mercado futuro, o governo aumentou de 0,38% para 6,0% o IOF que incide nas operações feitas por estrangeiros destinadas a cobrir a margem de garantia. O pressuposto é duvidoso. É o de que as cotações do câmbio à vista são, em grande parte, formadas no câmbio futuro. Se for relevante, essa medida estará produzindo um efeito indesejado, que é encarecer as operações de hedge no comércio exterior e nos Investimentos Estrangeiros Diretos. (O hedge é um recurso destinado a livrar quem trabalha com moeda estrangeira do risco de variação cambial.) Como são indispensáveis, muito provavelmente essas operações passarão agora a ser desviadas para o exterior, o que enfraquece a Bolsa brasileira nesse segmento. Parece mais provável que essa decisão seja irrelevante para o efeito buscado.

Em todo o caso, ações táticas dessa natureza podem ter lá sua função numa guerra cambial e num ambiente de alto risco para o aparecimento de bolhas, como ontem denunciou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Essas escaramuças contra a excessiva valorização do real não dispensam ação mais profunda. No caso, o problema maior é a diferença entre juros externos (baixíssimos) e internos (altíssimos). Isso significa que é preciso derrubar os juros internos, o que, por sua vez, exige mais equilíbrio das contas públicas para que a dívida possa ser rebaixada.

Confira

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Sem mudança. É improvável que o Copom altere os juros básicos (Selic), que estão nos 10,75% ao ano desde 21 de julho. O pressuposto do Banco Central tende a ser de que o repique inflacionário do momento está sendo provocado pela alta dos preços dos alimentos, quadro que logo deve ser revertido.

O futuro a Deus pertence. O Copom já não está mirando para o resultado deste ano, que ficará dentro da meta. Está olhando para a meta do ano que vem, embora a partir de janeiro toda a diretoria do Banco Central possa ser trocada.

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