Emitir moeda para salvar

Emitir moeda para salvar

Celso Ming

28 de agosto de 2012 | 20h00

Os grandes bancos centrais continuam sob formidável pressão para que façam mais e mais para tirar a economia da estagnação (caso dos Estados Unidos) ou de um agravamento da atual paradeira (caso da área do euro).

Paira enorme expectativa de que Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), use a exposição que terá nesta sexta-feira na reunião anual de Política Monetária, em Jackson Hole (Wyoming), Estados Unidos, para anunciar nova operação de afrouxamento quantitativo. Ou seja, seria uma nova emissão de moeda destinada a recomprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos que, assim, injetaria mais dinheiro para reativar o setor produtivo e o emprego.

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Bernanke e Draghi. No foco (FOTO: JOSHUA ROBERTS/REUTERS)

Até mesmo o cancelamento da ida a Jackson Hole de Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), devido a “pesados trabalhos nos próximos dias”, está sendo interpretado como indício de que, finalmente, comandará novas emissões de moeda destinadas à recompra de títulos de longo prazo de países do euro com problemas de dívida.

Desde 2008, os grandes bancos centrais têm imprimido moeda, para além da fronteira do que seria considerada ação responsável, com o objetivo de recolocar as grandes locomotivas econômicas em funcionamento.

Os obstáculos que esses dois grandes bancos centrais têm agora à sua frente para acionar novamente seus mecanismos heterodoxos não são da mesma natureza. O Fed enfrenta principalmente uma questão técnica: os juros básicos estão abaixo da linha d’água. Para dar o mais amplo horizonte aos investimentos dos empresários, o Fed já assumiu o compromisso de que ao menos até final de 2014 os juros serão mantidos nesse nível e as recompras de títulos de longo prazo já derrubaram seu rendimento (yield) para patamares nunca vistos – de 1,64% ao ano no caso dos títulos de dez anos.

O Fed poderá derrubá-los alguma coisa a mais? Sim, poderá. No entanto, mesmo que seja bem-sucedido, parece improvável que essa redução adicional dos juros baste para reativar a economia e puxar para baixo os índices de desemprego, hoje nos 8,3% da força de trabalho.

Há algumas semanas, Mario Draghi avisou que não demoraria a agir. E é o que pedem insistentemente os dirigentes dos países asfixiados pela dívida. Mas ele enfrenta outro tipo de obstáculo: a feroz oposição da Alemanha a que se emita moeda para recomprar títulos dos países altamente endividados (como Espanha, Itália e Portugal) e, de tal modo, tente derrubar os custos de cobertura, hoje insuportáveis, dos seus rombos orçamentários. Para os alemães, essa operação não passaria de mutualização (ou federalização) de dívidas, isto é, não seria nada mais do que repassar para todos os países da área de uma conta que cabe apenas aos super endividados.

Mesmo que, em nome do objetivo maior – fazer de tudo para defender a moeda –, o BCE consiga recomprar esses títulos, ainda não estaria assegurado o resgate do euro. Isso depende do que os países sócios da área ainda não se atrevem a fazer: criar uma união fiscal capaz de submeter o controle dos orçamentos a um poder central, o que, por sua vez, subentende a unificação política da área, a criação dos Estados Unidos da Europa.

CONFIRA

O gráfico ilustra o texto acima. O Fed criou demanda extra para os títulos do Tesouro americano. Pelo efeito da lei da oferta e da procura, mais demanda elevou os preços dos títulos. Ou seja, o tomador do título teve de pagar cada vez mais pelo mesmo título. Como os juros previstos no contrato do título permaneceram os mesmos, o rendimento (juros recebidos em proporção ao volume gasto para comprar o título), ou yield, ficou seguidamente mais baixo. O efeito não se esgotou aí: novas emissões de títulos de dívida do Tesouro americano passaram a pagar juros também cada vez mais baixos.