Entenda esse bitcoin

Entenda esse bitcoin

Celso Ming

15 de março de 2014 | 17h00

O título que você leu acima envolve uma limitação. Ninguém vai entender o que seja essa moeda virtual e sua eventual importância só com um punhado de noções. Mais apropriado seria dizer: comece a entender esse tal bitcoin.

Ele vem ganhando aceitação porque permite seu uso como unidade de valor, meio de pagamento e reserva de valor (as três mais importantes funções clássicas de uma moeda), sem cobrança de taxas ou de comissões, diretamente entre pessoas eletronicamente conectadas em qualquer lugar do mundo e sem intermediação de bancos e instituições reguladoras.

Os estragos provocados pela quebra da maior bolsa de negociação de bitcoins, a japonesa MTGox, no dia 25 de fevereiro, e o fechamento da canadense Flexcoin, no último dia 4, chamaram a atenção para os problemas de segurança e convertibilidade da novidade para outras moedas.

Tudo começou em 2009, quando um japonês sob o pseudônimo de Satoshi Nakamoto propôs a criação de um protocolo eletrônico que validasse transações pela internet, por meio de uma rede peer-to-peer (ponto a ponto). A partir daí, especialistas e nerds de todo o mundo passaram a contribuir para o desenvolvimento de um sistema em código aberto (open source), a Bitcoin Foundation – hoje com mais de 100 mil associados.

A proposta é que os usuários dos bitcoins repassem à rede global tempo de uso de seus poderosos computadores para registrar transações e validar os mecanismos de segurança. Em troca da resolução prolongada de equações matemáticas complexas, a chamada “mineração”, os colaboradores são remunerados em bitcoins. Hoje, a cada 10 minutos, o minerador é creditado em 25 bitcoins (cerca de R$ 37 mil, veja no gráfico).

Hoje, bitcoins podem ser comprados em casas de câmbio do ramo, com dólares, euros e até com reais. Para fazer transações com bitcoins é preciso abrir uma “carteira digital” diretamente na Bitcoin Foundation, ou por meio de outros programas disponíveis na internet ou, ainda, em sites que surfam essa onda. Já há estabelecimentos que aceitam bitcoins como meio de pagamento na compra de mercadorias e serviços, a exemplo de um bar em São Paulo, uma pousada em Maresias (SP) e um albergue em Florianópolis (SC).

“Assim como a internet revolucionou as comunicações, o protocolo bitcoin vai revolucionar as transações financeiras”, garante Flávio Prippas, fundador do BitInvest, mercado de compra e venda de moedas virtuais em reais. Ex-diretor de Tecnologia do JP Morgan, Prippas acredita em que o bitcoin seja o embrião de um novo sistema financeiro eletrônico global que deverá deixar para trás o Swift, padrão utilizado desde 1973.

O Banco Central (BC) do Brasil está preocupado com o potencial perturbador do bitcoin sobre o sistema monetário. Em comunicado divulgado dia 19 de fevereiro advertiu para eventuais problemas de segurança e interferências de hackers no sistema. Mas o BC não se limitou a isso. Um grupo de trabalho está encarregado de avaliar seu impacto e de propor providências destinadas a regular esse mercado (veja mais no Confira).

CONFIRA:

Foco global

As autoridades do Banco Central do Brasil propuseram um estudo ainda mais abrangente sobre os bitcoins, no âmbito do Bank of International Setlements (BIS), instituição que funciona em Basileia (Suíça) como banco central dos bancos centrais.

Risco à política monetária

O principal ponto crítico do sistema bitcoin é o temor de que ele possa colocar em risco a atuação dos bancos centrais e subverter pelo menos parte da soberania monetária dos países. É para o que alerta Pedro Duarte, professor de Economia Monetária da USP: “A eficácia da política monetária (política de juros) diminui se as pessoas passam a usar um sistema paralelo. Isso pode ter consequências sobre a inflação e a economia como um todo”.

Regulação

O professor Ricardo Rochman, da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), sugere que um dos caminhos possíveis para a regulação dos bitcoins seja tratá-los como mercadoria e não como moeda. / COLABOROU DANIELLE VILLELA

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