Erro de diagnóstico?

Celso Ming

16 de dezembro de 2011 | 19h55

Uma das mais fortes críticas ao tratamento dado à crise da União Europeia pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, é a de que o diagnóstico está errado.

Como entendida pela chamada dupla Mercozy, esta crise de endividamento insustentável foi gerada pela gastança incontida dos governos nos últimos dez anos e só pode ser revertida pela austeridade orçamentária.

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Os críticos afirmam que a verdadeira causa da crise é o desequilíbrio de suas contas externas: esses países há anos estão importando mais bens e serviços do que exportam e, para fechar suas contas externas, têm de trazer capitais para dentro de suas economias, por meio do endividamento.

Em outras palavras, eles dizem que esta crise não foi criada por despesas excessivas dos governos dos países do bloco do euro, mas, sim, por rombos sucessivos no seu balanço de pagamentos. (A tabela dá uma ideia do problema.) Quem mais tem insistido nesse diagnóstico é o economista Martim Wolf – um dos analistas de macroeconomia mais respeitados do mundo, que escreve semanalmente no diário Financial Times, de Londres.

Se esse ponto de vista está correto, a política de austeridade e de sacrifícios imposta aos quase quebrados para reequilibrar as finanças públicas – e não os balanços de pagamento – não tem lógica, porque ataca a causa errada.

De fato, na área do euro existem dois blocos nítidos. Há o dos países superavitários, que são Alemanha, Finlândia, Holanda, Áustria, Bélgica e França, economias que registram superávits entre 6% (caso da Finlândia) e 1% do PIB (França). E há o conjunto dos deficitários, os demais que ostentam déficits que variam de 9% (como Portugal) a 1% do PIB (Itália).

Países que carregam superávits em conta corrente são os que exportam mais bens e serviços. E isso é assim porque seu sistema produtivo é mais competitivo do que o dos países que não obtêm os mesmos resultados. A falta de competitividade, por sua vez, é a consequência de custos mais elevados na economia: sistema produtivo tecnologicamente ultrapassado, salários e custos sociais mais altos, carga tributária maior, infraestrutura precária e cara, instituições rígidas demais, sistemas previdenciários sobrecarregados.

Como é que se corrigem desequilíbrios estruturais nas Contas Correntes? Se cada país tivesse sua própria moeda, as deficiências seriam mais facilmente compensadas por meio de valorização cambial nos países superavitários e/ou desvalorização cambial nos deficitários.

O problema é que na União Europeia a moeda é compartilhada e, nessas condições, não pode ser valorizada ou desvalorizada para uns e não para outros. Além disso, os mercados de trabalho são pouco integrados, por causa das diferenças de idioma.

Assim, soluções implicariam reformas estruturais para a unificação dos sistemas tributários e previdenciários e investimentos em infraestrutura. Afora isso, os salários nos países superavitários teriam de subir para favorecer elevação do consumo, que deveria cair nos países deficitários para empurrar as exportações.

Mas, afinal, quem está certo: a dupla Mercozy ou seus críticos? O que dá para dizer é que isso lembra a velha e não resolvida questão de quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha.

Não há muito como separar desequilíbrios fiscais de desequilíbrios em Conta Corrente. São faces da mesma moeda. Quando carregam déficits estruturais, os países estão consumindo mais do que podem e por isso importam demais e dependem de captação externa de capitais. Isso, por sua vez, quase sempre é reflexo de contas públicas desequilibradas, ou seja, de despesas de governo muito maiores do que as receitas.

A questão da natureza da crise e do melhor tratamento a adotar para debelá-la não é desprezível e vai ser objeto de grandes discussões. Os problemas mais graves não são diagnósticos e tratamentos eventualmente equivocados, mas, sim, os dirigentes do bloco do euro não atacarem adequadamente nem os seus desequilíbrios fiscais e tampouco os externos. E, assim, a crise vai se acirrando sem solução à vista, sabe-se lá com que desdobramentos funestos para a democracia.