Falta de sintonia

Celso Ming

30 de setembro de 2010 | 18h48

Desta vez, o principal instrumento do Banco Central destinado a coordenar expectativas, o Relatório de Inflação, não está em sintonia com o que pensa o chamado mercado.

Para os analistas, há risco de que a inflação esteja outra vez escapando da meta. E, para que isso não aconteça, seria preciso puxar pelos juros imediatamente. O Banco Central, por sua vez, insiste em que as pressões da crise global são suficientes para empurrar a inflação para baixo e que o governo vai cumprir seus compromissos na área das contas públicas. Por isso, os juros básicos (Selic) estão de bom tamanho.

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HAMILTON – É salário aumentando (Foto: Sergio Dutti/AE)

A divergência mostra que há um problema na condução das expectativas que provavelmente tem a ver com o vencimento do prazo de validade da diretoria do Banco Central, que não conseguirá responder pelo que virá depois do dia 31 de dezembro. Mas, vamos aos fatos.

Pela primeira vez em muitos anos, o Banco Central está externando preocupações com o aumento excessivo dos salários (acima do aumento da produtividade) e com seu impacto futuro na inflação.

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, mencionou nesta quinta-feira a elevação dos riscos para o controle da inflação proveniente do forte avanço dos salários reais (já descontada a inflação), apresentando como campeão dessa categoria o setor da construção civil.

A construção civil é um segmento do setor produtivo que está sendo turbinado pelo governo, especialmente pelo programa “Minha Casa Minha Vida”. Não é à toa que o crédito hipotecário cresce à velocidade recorde de 51,1%.

À parte as declarações do diretor Carlos Hamilton, o Relatório aponta, preto no branco, os seguintes números: avanço real dos salários no segundo trimestre (em relação a igual período de 2009) de 10,5% no segmento informal da economia e de 1,8% entre os trabalhadores com carteira assinada; crescimento dos salários acima da inflação de 9,9% na construção civil, de 5,6% nos serviços e de 3,6% no comércio. E o salto da massa salarial, de 7,4%. O Relatório acusa ainda o forte aumento no consumo. As vendas do comércio varejista estão 11,5% mais altas.

Esse encadeamento de números não encerra o diagnóstico. Sabemos, por exemplo, que a disparada dos salários e do consumo está sendo alavancada pela expansão das despesas correntes do governo federal (em aproximadamente 17%).

Mas, como das outras vezes, o Banco Central tem conhecida dificuldade em reconhecer as origens fiscais do problema. Prefere apostar em que a meta das sobras de arrecadação para pagamento da dívida (superávit primário) de 3,3% do PIB (cerca de R$ 117 bilhões) será cumprida neste ano. Nesse particular, o Banco Central também fecha os olhos. Não se pergunta se o cumprimento do superávit primário está mesmo assegurado nem tece considerações sobre as mandracarias perpetradas no Ministério da Fazenda para poder enfeitar os balanços com esse número aí.

Assim, o Relatório de Inflação parece apresentar prognóstico algo desproporcional ao diagnóstico que faz. Quando aponta para o salto do consumo e seus riscos, parece tentado a fazer advertências. Mas quando conclui que a inflação vai encerrar o ano “na meta”, sugere que dá por concluído o atual ajuste dos juros.

É uma desproporção que concorre para a falta de sintonia. E aí entram as considerações sobre o enfraquecimento do Banco Central em fase final de mandato.

Confira

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Quer e não quer. O governo parece atarantado porque não aceita as consequências do que quer. Quer mais recursos estrangeiros para a Petrobrás, na maior operação de subscrição de capital de todos os tempos; quer mais dólares para o Fundo Soberano e para o BNDES; quer que o exportador traga dinheiro para reduzir o déficit externo; quer recursos para as obras da Copa, da Olimpíada, do trem-bala e para tanta coisa mais. E depois lamenta que o dólar afunde, como hoje, na cotação mais baixa desde a falência do Lehman Brothers.

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