Faltou convencer

Faltou convencer

Celso Ming

20 de dezembro de 2012 | 20h00

Uma coisa é estar convencido de algo e tentar repassar a certeza para os demais. Outra, bem diferente, é querer que as coisas mudem e usar os outros para tentar obter esse resultado.

Esse segundo modo de agir e argumentar envolve o que os ingleses chamam de wishful thinking. E, às vezes, é essa a impressão que passa o Banco Central até mesmo no principal instrumento de que dispõe para agir sobre as expectativas dos agentes da economia.

O Relatório de Inflação divulgado nesta quinta-feira deveria ser peça sólida para ajudar a prever a trilha da inflação e da economia brasileira nos próximos meses. Mas está longe disso. Lacunas e, sobretudo, contradições permeiam o texto.

O Banco Central insiste, por exemplo, em que, embora “de forma não linear”, a trajetória da inflação converge para a meta de 4,5% ao ano. Mas suas projeções o desmentem. Para este ano, prevê inflação de 5,7%; para 2013, de 4,8%; para 2014, de 4,9%. Ou seja, não há como esperar a inflação na meta nem em 2014.

Se o discurso e a demonstração fossem coerentes e, sobretudo, consistentes, essas diferenças seriam imperceptíveis e pouco significativas. Não são.

O documento não conta com reajuste dos combustíveis ao longo do ano que vem. Há dois dias, no entanto, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou que está previsto, sim, esse reajuste – o que, segundo ele, não deveria espantar ninguém, porque “todo ano tem”. Não estão informadas nem a data nem em quantas vezes ocorrerá. A direção da Petrobrás advertiu, inúmeras vezes, que, sem uma correção de 15% dos preços dos combustíveis, não poderá levar adiante seu plano de investimentos de US$ 236,5 bilhões até 2016. Ainda nesta quinta-feira, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, explicou que um reajuste de 10% nos preços da gasolina bastaria para aumentar em 0,9 ponto porcentual a inflação em 12 meses. Só com esse impacto, os 4,8% de inflação projetada pelo Banco Central para 2013 pulariam para 5,7%.

Para garantir suas expectativas, o Relatório também assegura em 2013 o cumprimento do superávit primário de 3,1% do PIB. Essa é uma sobra de arrecadação destinada ao pagamento da dívida, que reflete administração equilibrada das contas públicas. Mas o texto alerta que a política fiscal deixou de ser neutra para ser expansionista. Ou seja, até agora, o governo atua contra a convergência da inflação para a meta. Está mais preocupado em não repetir o fiasco do PIB chinfrim.

Outro fator que age contra uma inflação bem comportada é a alta do custo da mão de obra. O Relatório avisa que o mercado de trabalho opera “com margem estreita de ociosidade”. É, enfim, o pleno emprego. Se esse fator já opera com a corda esticada numa economia que avança a apenas 0,9%, imagine-se a quantas operará caso se confirmem no ano que vem as projeções oficiais de um avanço do PIB de 4,0% a 4,5%.

Em suma, a inflação entra em 2013 com quentura superior àquela com que o Banco Central diz contar. Se é para empurrá-la para dentro da meta ou para perto disso, será preciso acionar outros instrumentos, especialmente a política fiscal (mais austeridade nas contas públicas) e a política cambial (impedir novas altas da moeda estrangeira no câmbio interno).

CONFIRA

A tabela do Relatório de Inflação mostra como a elevação de custo da mão de obra (custo unitário do trabalho) derruba a produtividade da indústria de transformação.

Mercado apertado. Em 2013 o salário mínimo terá um reajuste de 8,5%, bem abaixo do de 2012 (14%). No entanto, a expectativa é de alta dos salários, por causa da melhora da atividade econômica. Só eventual agravamento da economia mundial mudaria esse quadro.