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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

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Celso Ming

17 de maio de 2013 | 20h00

Para que servem, afinal, as revoluções?

“A revolução importará 50 milhões de rolos de papel higiênico” – avisou quarta-feira na TV o ministro do Comércio da Venezuela, Alejandro Fleming. Com mais essa providência tomada em caráter emergencial, tentou abortar nova corrida aos supermercados.

 


Maduro. Buscando um culpado (FOTO: Dida Sampaio/Estadão)

 

O desabastecimento está encurralando o presidente Nicolás Maduro, que neste domingo completará um mês no cargo. Falta de tudo no mercado varejista do país: carne, farinha de trigo, leite em pó, manteiga, café, açúcar… E, também, nas farmácias.

O governo entendeu que precisa encontrar um culpado. Não para de denunciar o boicote dos fornecedores de produtos essenciais e o alarmismo da imprensa com o objetivo de desmoralizar as autoridades e de desestabilizar a presidência. O alvo da hora é o conglomerado Empresas Polar, comandado pelo milionário Lorenzo Mendoza, principal produtor do setor de alimentos.

É provável que o noticiário exasperante e os debates na TV estejam contribuindo para o apagão geral, dentro do velho exemplo de que basta o anúncio de que faltará água para que todos corram para encher a banheira e para que as torneiras sequem ainda mais rapidamente.

O problema de fundo é velho de guerra. Há nada menos de 15 anos, os preços são controlados pelo governo venezuelano. Ainda assim, a inflação acumulada nos primeiros quatro meses deste ano foi de 12,5%.

Empresários investem pouco porque não têm retorno e porque os custos sobem ainda mais do que os preços. A partir de 2007, o então presidente Hugo Chávez estatizou grande número de empresas, sobretudo nos setores de energia elétrica e cimento. A ameaça de perder o controle dos negócios para o governo é fator adicional que inibe investimentos.

Na última terça-feira, um dia após uma conversa de mais de duas horas em Brasília com o ex-presidente Lula, que o aconselhou a não perder a iniciativa na condução da política econômica, o presidente Maduro anunciou reajuste de 20% em alguns preços com o objetivo de reestimular a produção. O impacto sobre a inflação é óbvio e a corrosão do poder aquisitivo que se segue, também.

A escassez maior é de moeda estrangeira. Apesar das fortes exportações de petróleo e, portanto, das receitas em moeda estrangeira, as importações estão cada vez mais pressionadas porque têm de garantir o abastecimento. No mercado paralelo o dólar está cotado 312% acima do câmbio oficial.

Agora, analistas políticos de todo o mundo se sucederão para avaliar as condições de Maduro de seguir controlando a economia. O problema é que desarrumações dessa magnitude exigem respostas saneadoras altamente impopulares que somente governos com forte respaldo político conseguem levar adiante. Se estivesse vivo, o carismático Hugo Chávez talvez ainda tivesse sucesso numa empreitada assim.

Não é a condição do presidente Maduro, que assumiu o cargo sob grande contestação e que agora parece disposto a pedir apoio das Forças Armadas para seguir governando.

No momento, a oposição recorre à ironia: “Este é o país que detém as maiores reservas de petróleo do mundo e, no entanto, não tem papel higiênico”, disse nesta sexta-feira o candidato derrotado da oposição, Henrique Capriles.

CONFIRA

Nesta sexta-feira, as bolsas ao redor do mundo levaram uma injeção de ânimo, como mostra o gráfico, apenas porque a Universidade de Michigan divulgou um bom número do seu indicador que mede o otimismo do consumidor norte-americano. O índice saltou a 83,7 em maio, nível mais alto desde julho de 2007. A expectativa era de que não passaria de 78,0.

É a recuperação? Mais confiança do consumidor indica maior predisposição às compras e mais demanda de crédito e, portanto, melhor perspectiva de recuperação da economia.

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