Faroeste cambial

Faroeste cambial

Celso Ming

29 de agosto de 2012 | 21h00

Nesta quarta-feira, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, passou recado de reconhecida gravidade no site do jornal alemão Die Zeit. Disse que a política de juros do BCE, única para o euro, já não alcança toda a área uniformemente. Daí porque, concluiu, serão necessárias decisões fora de padrão para dar eficácia à política monetária. Não falou o que está preparando, mas, para o objetivo desta Coluna, não é isso o que importa agora.

A afirmação de que a mesma política monetária não pode valer para a mesma área monetária não é menos surpreendente do que as conclusões do Observatório do Câmbio, da Fundação Getúlio Vargas, que se propôs a calcular os desalinhamentos cambiais das principais economias do mundo, com base em metodologia que leva em conta os fundamentos dessas economias. Esses estudos, conta a economista Vera Thorstensen, concluem que, “dentro da área do euro, há desalinhamentos cambiais significativos, com Grécia, Holanda e Espanha valorizados e Alemanha, França e Finlândia desvalorizados”.

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Draghi. Decisões fora de padrão (FOTO: MICHAEL PROBST/AP)

O que provocou enormes diferenças de competitividade nas economias do euro não foram políticas cambiais divergentes, porque a moeda é a mesma para todos. Essas diferenças de competitividade entre os países do bloco também não foram determinadas pela política de juros – foram produzidas por reduções de salários e de aposentadorias, reformas que baixaram os custos da economia, queda da carga tributária, construção de infraestrutura mais eficiente e mais barata…, etc.

O governo Dilma está preocupado com o estrago provocadopelos desalinhamentos cambiais sobre a capacidade de exportar do Brasil. Ela própria assumiu o discurso da existência de uma guerra cambial, tão repetido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e distribuiu reclamações em que expõe o impacto sobre a economia brasileira, do que chamou de tsunami monetário – que é a forte expansão de moeda provocada pelos grandes bancos centrais. O governo Dilma parece imaginar que a Organização Mundial do Comércio, que não consegue acordo nem sobre se convém ou não retomar as discussões comerciais, possa abrir nova frente de negociações para instituir mecanismos de salvaguarda contra o chamado dumping cambial ou, como os ingleses preferem dizer, contra políticas que reduzam os vizinhos à mendicância (beggar your neighbour policies). Ninguém pode negar que os desalinhamentos cambiais sejam hoje tão grandes que reduziram a pó estruturas tarifárias de defesa comercial. Mas não será com restrições às políticas cambiais hoje adotadas a título de legítima defesa que a justiça comercial será restabelecida nesse faroeste.

As autoridades monetárias têm hoje um único objetivo: evitar o naufrágio dos seus navios, como o demonstram Ben Bernanke e Mario Draghi. Para isso, vêm assumindo riscos nunca dantes assumidos. Não podem mesmo dar ouvidos aos que esperneiam contra suas manobras monetárias.

Responder com guerra cambial contra quem faz guerra cambial, como às vezes sugere o governo Dilma, tem tudo para ser ruim para o Brasil. Aí, a melhor defesa é reforçar suas posições com importante redução de custos.

CONFIRA

O Copom confirmou novo corte dos juros básicos (Selic) de 0,5 ponto porcentual. Em 12 meses, a redução acumulada é de 5 pontos. O novo sinal, “de máxima parcimônia”, é de que, se houver, o próximo corte será de 0,25 ponto porcentual.

Reforço. A principal consequência da prorrogação das isenções tributárias, que deveriam terminar amanhã, é algum fôlego extra no consumo. O objetivo é apresentar ainda neste ano um crescimento do PIB maior do que o 1,7% antecipado nas projeções. Falta saber se a produção conseguirá andar depois sem essa turbina.