Fazer escolhas

Celso Ming

23 de dezembro de 2011 | 19h50

A equipe econômica do governo Dilma já não insiste, como até há algumas semanas, em projetar o avanço do PIB em 2012 em 5%. Já trabalha com números mais modestos, ao redor dos 4%. No entanto, o Banco Central, bem mais realista, apontou quinta-feira, no seu Relatório Trimestral de Inflação, um crescimento do PIB de apenas 3,5%.

O que se pode dizer é que, num quadro de estagnação global, as tendências mais realistas para 2012 são de uma expansão mais modesto da economia brasileira, equivalente ao que se obterá neste ano.

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Dilma. Vem um PIB mais baixo (FOTO: DIDA SAMPAIO/AE)

O problema não é apenas esse, mas também o de que, além de enfrentar uma atividade econômica mais fraca, sobe o risco de que, em 2012, o governo Dilma também não consiga empurrar a inflação para o centro da meta (de 4,5%), como vem insistentemente prometendo e como está nos documentos oficiais do Banco Central.

Os números prévios (IPCA-15) de dezembro divulgados quarta-feira, como se pode ver à direita, não confirmaram perda de força da inflação brasileira. Não dá para afirmar que os resultados relativamente ruins da inflação de dezembro tenham sido somente um ponto fora da curva, atribuível à demanda exacerbada de final de ano.

Ao contrário. Novos fatores tendem a jogar mais lenha para a fornalha. A partir de janeiro, por exemplo, o salário mínimo enfrentará o reajuste já contratado ao redor dos 14% ao ano, acima do avanço da inflação e da produtividade. Num mercado de trabalho fortemente aquecido, como se viu pelo desemprego recorde de novembro, esse é um fator que, por si só, tem possibilidades de puxar os preços para cima. Além disso, 2012 será um ano de eleições municipais que, no Brasil, funcionam como aglutinação de forças para as eleições de dois anos depois, quando da definição dos novos governadores e do presidente da República para o período seguinte. Isso significa que as despesas públicas têm tudo para aumentar para fora do previsto, sobretudo nos Estados e nos municípios – o que deverá concorrer para a criação de renda e o aumento da demanda. Enfim, estamos falando de um quadro que tem tudo para dar corda à inflação.

Boa pergunta consiste em saber como se comportará o Banco Central na condução de sua política monetária (política de juros) numa provável conjuntura crescimento mais baixo, retração do superávit primário e alta da inflação.

Isto posto, convém lembrar que a intenção do coquetel de política monetária adotado em 2011 foi proporcionar uma dose mais alta de austeridade fiscal (aumento do superávit primário para 3,1% do PIB) para que os juros básicos (Selic) pudessem cair e, com isso, ajudar a impulsionar a atividade econômica.

Para isso, o governo Dilma apostou em pressões mais baixas nos preços dos alimentos em consequência do agravamento da crise internacional. Agora se vê que esse alívio não bastou para segurar os preços nos níveis pretendidos. Além do mais, as autoridades não contavam com o esticão dos custos dos serviços e dos combustíveis (pela baixa oferta de etanol).

Isso dificulta a sustentação da atual combinação de políticas econômicas ao longo de 2012. Com esse patamar de inflação, o desarranjo pode ser elevado e o Banco Central deve ter dificuldades para manter o atual ritmo de desaperto monetário para depois abril. Cresce também a probabilidade de que a alta dos juros tenha de ser retomada no final do segundo semestre do ano que vem.

Se isso se confirmar, a doceira de Brasília não poderá entregar o bolo enfeitado prometido pela presidente Dilma. Isso significa que o governo precisará fazer novas escolhas. Terá de eleger o objetivo mais importante: se é controlar a inflação, se é obter a baixa acentuada dos juros ou se é assegurar um crescimento econômico mais alto do que o que vai pintando para 2012.