Ficção Orçamentária

Ficção Orçamentária

Hoje esta Coluna cuida de dois temas: o surpreendente avanço do PIB dos Estados Unidos e a peça de ficção produzida pelos ministros Miriam Belchior (Planejamento) e Guido Mantega (Fazenda)

Celso Ming

28 de agosto de 2014 | 21h00

Hoje esta Coluna cuida de dois temas: o surpreendente avanço do PIB dos Estados Unidos e a peça de ficção produzida pelos ministros Miriam Belchior (Planejamento) e Guido Mantega (Fazenda).

O governo dos Estados Unidos (Departamento do Comércio) divulgou, nesta quinta-feira, os números finais das contas nacionais do segundo trimestre. E o resultado superou as expectativas. No período, o avanço do PIB da mais importante locomotiva do mundo foi de 4,2% ao ano. É um número robusto, que dispara consequências para a economia global e para o Brasil.

Nesta sexta-feira, o IBGE divulgará as Contas Nacionais, também do segundo trimestre. E o que se verá será o contrário disso, provavelmente um recuo avassalador do PIB brasileiro. O desempenho da economia dos Estados Unidos esvazia o argumento do governo Dilma de que o fiasco do País se deve, preponderantemente, à paradeira global. Um crescimento em bases anuais de 4,2% na principal economia do mundo não pode ser tomado como fator paralisante do Brasil. A única explicação para o comportamento decepcionante do setor produtivo brasileiro tem de ser procurada no universo das mazelas nossas.

A principal consequência do novo impulso americano deverá ser a retomada da velocidade das correias de transmissão no resto do mundo. As empresas dos Estados Unidos tendem a aumentar as encomendas a seus fornecedores tradicionais e, apenas por conta desse maior dinamismo, projetos de investimento devem sair das gavetas. Outra consequência deverá ser o disparo do processo de enxugamento monetário já anunciado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que pode acontecer já no primeiro trimestre de 2015, ainda dependendo do comportamento do mercado de trabalho americano. Menos dólares circulando podem reduzir o afluxo de capitais para países mal resolvidos, como o Brasil.

Nesta quinta-feira, o governo anunciou o Projeto de Lei Orçamentária para 2015, que deveria servir de base para a definição dos números macroeconômicos. Infelizmente, a produção dos ministros Miriam Belchior e Guido Mantega continua sendo um jogo de faz de conta, e não um manual com um mínimo de credibilidade destinado a orientar a atividade produtiva do ano.

Para a elaboração de um orçamento é preciso prever variáveis importantes da economia, como a evolução do PIB e da inflação. São fatores vitais que determinarão tanto a arrecadação como a despesa. E lá no projeto de Orçamento estão, preto no branco, as afirmações de que, em 2015, o PIB crescerá 3,0% e a inflação será de 5,0% (veja a tabela acima).

Não se conhece nenhum analista, nenhuma consultoria, nenhum banco, nenhum administrador de patrimônio que prevejam crescimento do PIB, em 2015, tão alentado. O levantamento feito semanalmente pelo Banco Central (BC) com cerca de 100 instituições do mercado (Pesquisa Focus) aponta, para 2015, média de avanço de 1,2%.

Também é irrealista a projeção de inflação (IPCA) assumida pelo Orçamento. O mercado indica 6,28%. O próprio Banco Central, no seu Relatório de Inflação, trabalha com uma inflação para 2015 de 6,0% a 6,3%. Ou seja, o que vale para o Banco Central, no campo de sua especialidade, não vale para o resto do governo. Por aí já se vê que qualidade podem ter esses números.

CONFIRA:

A variação mensal do IGP-M continua negativa. Foi de -0,27% em agosto (em relação a julho).

Preços no atacado
No período de 12 meses (até agosto), o avanço do IGP-M foi de apenas 4,89%, enquanto a inflação (evolução do IPCA) deve ter ficado acima de 6,0%. Pesou no IGP-M negativo a queda de preços no atacado, principalmente a das commodities.

Aluguéis e financiamentos

Quem paga aluguel ou empréstimos imobiliários vai ter um reajuste mais baixo neste e nos próximos meses.