Flutua, mas nem tanto

Flutua, mas nem tanto

Celso Ming

31 de maio de 2013 | 20h00

Quem tomou ao pé da letra as últimas declarações do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central de que o câmbio voltou a ser flutuante deve estar decepcionado.

Nesta sexta-feira pela manhã, quando a cotação atingira R$ 2,147, o Banco Central interveio. Anunciou um leilão de venda no mercado futuro (swap cambial). E foi o que ainda limitou o fechamento à alta de apenas 1,75%. (Abaixo, os rastros das cotações do dólar no câmbio interno.)

Aí há dois pontos de análise: as causas da disparada e o resultado prático.

Tudo começou dia 22, quando Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) preparou os espíritos para uma virada de sua política monetária.

Hoje, o Fed despeja US$ 85 bilhões na compra de títulos no mercado financeiro. A operação conhecida como afrouxamento quantitativo (quantitative easing) objetiva criar condições para a retomada da atividade econômica dos Estados Unidos, prostrada pela crise. Desacelerar ou suspender (ainda não está claro) a operação implica emissão de menos dólares do que o esperado e, portanto, valorização em relação às outras moedas. Foi a principal razão pela qual o dólar ganhou força nos mercados e, com ele, reduziram-se as cotações das mercadorias negociadas na moeda, sobretudo commodities e ouro (veja o Confira).

O movimento coincidiu com a percepção mais forte de deterioração da economia brasileira: mais inflação, crescimento decepcionante do PIB no primeiro trimestre e, fator relativamente novo, aumento do rombo das contas externas. Esse último está caracterizado pelo avanço do déficit em Conta Corrente, onde são contabilizadas entradas e saídas de moeda estrangeira no comércio de mercadorias e serviços e nas transferências ao/do exterior. É o melhor indicador para avaliar necessidades futuras de moeda estrangeira. Em quatro meses, o rombo saiu de 2,4% para 3,0% do PIB.

Isso não é tudo. A ênfase do ministro Guido Mantega e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que não interviriam mais no câmbio havia sido entendida como aviso de que o governo tem especial interesse na desvalorização do real, com o objetivo aparente de melhorar a competitividade do setor produtivo, principalmente da indústria.

A atitude de Mantega e de Tombini não foi dizer que “câmbio é assunto sobre o qual as autoridades não falam”. Nem foi reafirmar que, no Brasil, continua em vigor o regime de “flutuação suja”. Foi garantir que não haveria intervenção, a não ser para evitar excessiva volatilidade dos fluxos (entrada e saída de dólares), o que não aconteceu.

Independentemente do que dizem as autoridades, o leilão desta sexta-feira mostra que há limites para a desvalorização do real. Elas não olham só para a premência de garantir competitividade à indústria. Temem que uma disparada cambial turbine a inflação e ponha muito a perder.

Qual é o limite? Provavelmente, nem elas sabem. Mas já dá para avaliar que, se persistir, apenas a alta de maio pode ser suficiente par a puxar em 0,4 ponto porcentual a inflação dos próximos meses.

O governo parece desnorteado com a piora dos fundamentos da economia.

CONFIRA:

O gráfico mostra a evolução dos preços do ouro em dólares ao longo do mês de maio.

A curva acima não reflete a desvalorização do ouro, nem uma eventual melhora da economia global – já que o ouro é o “metal do medo” e a queda das cotações poderia ser indicação de que reduzira-se o risco. A curva reflete a valorização do dólar. Ou seja, a partir da fala de Ben Bernanke, presidente do Fed (Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos), o dólar passou a comprar mais ouro do que antes.