Foco errado

Foco errado

Celso Ming

30 de julho de 2011 | 16h30

Sexta-feira, a cotação do dólar voltou a recuar (1,02%) no câmbio interno, reforçando as dúvidas sobre a eficácia das decisões tomadas para reverter a tendência de baixa do dólar (veja o gráfico no Confira).

Antes, na quarta-feira, o governo entendeu que devesse intervir pesadamente no mercado de derivativos (mercado futuro do dólar), baseado no diagnóstico de que é principalmente nesse segmento que se formam os preços da moeda estrangeira. E esse tem tudo para ser o engano maior.

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Mantega. Eficácia duvidosa (FOTO: ANDRE_DUSEK/AE)

Se é o mercado de derivativos que, de fato, determina os preços, então o Banco Central tem falhado desde 2004, quando iniciou a compra de moeda estrangeira no segmento à vista, supostamente para dissipar excessiva volatilidade. De lá para cá, empilhou US$ 340 bilhões em reservas externas – principal produto dessas compras. Essas quantias foram alegadamente formadas para blindar a economia brasileira contra a crise externa e, nisso, foram e estão sendo eficazes. Mas, ao crer no mais novo diagnóstico do governo Dilma, o Banco Central avisa que terá sido inútil seu esforço em formar reservas para seu outro objetivo: evitar a excessiva valorização do real. Ou seja, até aqui, o Banco Central atuou no mercado errado, menos importante na formação dos preços.

Não têm razão os dirigentes da Fiesp quando afirmam que a exportação de negócios de hedge, efeito colateral das últimas decisões tomadas, não é nada ante o esvaziamento da indústria castigada pela excessiva valorização do real. Esse argumento apenas seria aceitável se as medidas agora tomadas fossem eficazes para segurar a devastação no câmbio e na indústria brasileira.

Ninguém sustenta a ideia de que mais importante do que garantir a competitividade do produto brasileiro seja preservar os negócios de derivativos no mercado interno. O foco é outro. Atitudes como as da semana passada são fortes o bastante para destruir o mercado de derivativos. Contudo, mais e mais dólares continuarão entrando no País, na condição de receitas de exportações, investimentos estrangeiros e empréstimos entre empresas. E as cotações do dólar continuarão mergulhando.

Ou seja, o grande risco é o de que as mais recentes decisões na área do câmbio, além de não frearem o tombo do dólar – objetivo mais importante –, produzam ainda o efeito colateral de desintegrar o mercado de hedge, por meio do qual empresas e pessoas físicas se protegem do risco cambial.

O que mais preocupa não é o voluntarismo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, entre exasperações, decidiu fazer qualquer coisa para evitar novas valorizações do real. É o fato de que, tomado pela aflição, corte os dedos para se livrar de um câncer e, por essas e outras, não se livre  do câncer e ainda perca os dedos.

A principal causa da valorização do real é a desvalorização do dólar, contra a qual pouco há a fazer. Mas, ainda assim, a melhor coisa que o governo Dilma poderia prover para evitar a excessiva valorização do real é derrubar fortemente os juros, para evitar que os capitais entrem (ou deixem de sair) para tirar proveito dos ganhos no mercado financeiro.

Só que isso não se faz com atos de voluntarismo. Para derrubar os juros, será preciso reduzir valentemente as despesas, para que recue o consumo provocado pela renda criada pela política fiscal e que a política de combate à inflação não fique toda nas costas do Banco Central.

CONFIRA

 

No gráfico, o impacto da forte intervenção do governo no mercado de derivativos sobre as cotações do dólar no câmbio interno.

43 minutos do 2.º tempo. A partir deste domingo, são 48 horas para que os políticos dos Estados Unidos se entendam para definir as condições que autorizarão o aumento do endividamento do Tesouro do seu atual piso de US$ 14,3 trilhões. As finanças do Estado americano vão sendo empurradas para a beira do precipício e, enquanto isso, aumenta o risco de que se instaure um período de grande incerteza na economia global.